O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Boosco deleytoso

ANÔNIMO. Boosco deleytoso. Portugal: Final do século XIV ou início do século XV.

O Boosco deleytoso é um livro composto muito provavelmente em princípios do século XV ou final do século XIV. A versão que chegou até nós no entanto foi impressa em 1515 por Hermão Campos e encontra-se sob a guarda da Biblioteca Nacional de Portugal. Trata-se pois de um dos livros mais importantes oriundos da cultura monástica portuguesa. A cultura monástica foi a primeira responsável pelo ajuntamento de livros e composição de novas obras em Portugal já no século XII onde aparecem dois centros intelectuais importantes: Santa Cruz de Coimbra e Alcobaça. Por volta do século XV a produção monástica concorre com a produção cortesã mais ainda assim datam do final do século XIV e do século XV alguns tratados oriundos dos monastérios que tinham como principal matéria discutir as questões relativas aos mistérios da fé além do Boosco são eles: Orto do Esposo o Virgeu de Consolaçon a Corte Enperial e o Castelo Perigoso. Tais tratados foram compostos muito provavelmente como ferramenta de ensino para religiosos e leigos e por esse motivo vale lembrar que eles parecem ter tido uma relativa circulação no meio cortês tendo em vista que dois desses textos são arrolados no inventário da biblioteca duartina – Corte Enperial e Orto do Esposo – e o Virgeu é bastante citado na principal obra de D. Duarte o Leal Conselheiro. Já o Boosco Deleitoso por seu conteúdo igualmente moralizante pode ser enquadrado nesse projeto que visava o regramento moral voltado também para os leigos.
Nesse livro o personagem central é um solitário que percorre um bosque que por vezes é agradável e belo mas em alguns momentos é tenebroso e dificulta muito seu trajeto. No percurso ascético-místico descrito no livro o solitário peregrino guiado pelo Anjo da Guarda se coloca a andar e falar com vários santos filósofos e com os personagens que representam as virtudes – a justiça a temperança a fortaleza a prudência entre outros – e os saberes cristãos representados pela Santa Ciência da Escritura de Deus. Esse itinerário no entanto representa o percurso da alma do cristão que procura respeitar a máxima do conhecimento de si assumindo humildemente seu papel de pecador que através da confissão para si mesmo desses pecados percorre sua viagem solitária e mística até o monte da contemplação onde enfim pode entrar em comunhão com seu esposo Jesus.
Esse caminho por vezes duro e difícil por vezes prazeroso e contemplativo se enquadra no modelo medieval de “marcha de Deus” no entanto se os peregrinos se retiravam do convívio familiar da comunidade monástica ou senhorial para seguir os perigos de um trajeto para a terra Santa o peregrino da alma escolhe o ermo do bosque motivado pois pela negação da vida social. A descrição do lugar escolhido pelo pecador anônimo revela a ambiguidade de sua trajetória e por sinal dos ensinamentos que ele traz no seu livro: o bosque é associado ao caminho do aperfeiçoamento moral tanto por ser áspero e difícil de ser percorrido como também se aproxima deste por ser saudável e prazeroso. A escolha do bosque para essa viagem espiritual é justificada logo no prólogo da obra:

“Este livro é chamado Boosco deleitoso porque assi como o boosco é lugar apartado das gentes e áspero e êrmo e vivem enele animálias espantosas assi eneste livro se conteem muitos falamentos da vida solitária e muitos dizeres ásperos e de grande temor pêra os pecadores duros de converter. Outrossi em no boosco há muitas ervas e árvores e froles de muitas maneiras que som vertuosas pera a saúde dos corpos e graciosas aos sentidos corporaaes. E outrossi há i fontes e rios de limpas e craras águas e aves que cantam docemente e caças pera mantiimento do corpo”. (BOOSCO DELEITOSO 1950 p. 3).

No Boosco deleitoso como vimos o anônimo escritor opta por narrar um mundo maravilhoso para ilustrar a trajetória da alma do cristão passando pelo conhecimento de si pela confissão dos pecados depois pela penitência até o encontro com Deus para o julgamento final; trajetória que portanto é metáfora da lei natural acreditada pelos cristãos. Dessa maneira a trajetória da alma do cristão tem como objetivo a união indissolúvel com Deus e portanto o alcance de uma outra vida uma vida feliz ou a Beata Vita. Para ilustrar essa ideia ou melhor para desenvolver seu propósito o escritor utiliza além do exemplo uma outra técnica de escrita bastante comum naquele tempo: a alegoria. O gosto pelo recurso à alegoria nos escritos medievais se explica em grande parte pela vivência na Idade Média carregada de símbolos “significados referências supra-sentidos manifestações de Deus nas coisas” em suma “uma natureza que falava continuamente uma linguagem heráldica [...]”. (ECO 1989 p. 72). Partindo desse princípio da estética do discurso cristão as alegorias contribuíram para a construção simbólica da realidade ou seja serviram como uma forma de buscar um correspondente para a realidade das coisas e assim aguçar a curiosidade e a vontade dos homens para a decifração desse mundo ambíguo de fé e natureza.
Além do recurso à alegoria outra técnica de escrita muito comum nos escritos dos séculos XIV e do XV era o das compilações como prática subliminar em que o r não revelava as suas fontes. Esse modo de compor os livros retomando mas sem compor antologia ou seja sem tomar a coletânea como alvo é o modo mais utilizado pelos escritores portugueses. Os estudos sobre a produção da época apresentam esse problema como recorrente no Boosco Deleitoso pois diversos pesquisadores apontaram a influência de Petrarca nessa obra ou mesmo o cruzamento linha a linha em algumas passagens desse livro e o conhecido De vita solitária de Petrarca.

Referências

Edições Modernas

MAGNE Augusto (ed.). Boosco deleitoso. Edição do texto de 1515 com introdução anotações e glossário de Augusto Magne. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro 1950. 2v.

Estudos

CALAFATE Pedro. História do Pensamento Filosófico Português. Lisboa: Caminho 1999.

ECO Umberto. Arte e Beleza na estética medieval. Rio de Janeiro: Globo 1989.

LANCIANI Giulia e TAVANI Giuseppe (Org. e coord.). Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa. Lisboa: Caminho 1993.
MARTINS Mário. Estudos de Cultura Medieval. Lisboa: Editorial Verbo 1969.

MARTINS Mário. Petrarca no “Boosco Deleytoso”. In: Estudos de Literatura Medieval. Braga: Cruz 1956.

MATTOSO José . Religião e cultura na Idade Média Portuguesa. Lisboa: Círculo de Leitores 2000.

MONGELLI L. M. (coord.). A literatura doutrinária na corte de Avis. São Paulo: Martins Fontes 2001.

Michelle Souza e Silva
Bolsista de TT - FAPESP / Grupo J.P. O ensino da fé cristã na Península Ibérica (sécs. XIV e XV)

Edições Modernas

MAGNE, Augusto (ed.). Boosco deleitoso. Edição do texto de 1515, com introdução, anotações e glossário de Augusto Magne. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1950. 2v.
Estudos
CALAFATE, Pedro. História do Pensamento Filosófico Português. Lisboa: Caminho, 1999.
ECO, Umberto. Arte e Beleza na estética medieval. Rio de Janeiro: Globo, 1989.
LANCIANI, Giulia e TAVANI, Giuseppe (Org. e coord.). Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa. Lisboa: Caminho, 1993. MARTINS, Mário. Estudos de Cultura Medieval. Lisboa: Editorial Verbo, 1969.
MARTINS, Mário. Petrarca no “Boosco Deleytoso”. In: Estudos de Literatura Medieval. Braga: Cruz, 1956.
MATTOSO, José . Religião e cultura na Idade Média Portuguesa. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000.
MONGELLI, L. M. (coord.). A literatura doutrinária na corte de Avis. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Trecho traduzido e modernizado

CAPÍTULO I

Do homem mezquinho, desterrado e lançado do paraíso terreal e da bem-aventurança do paraíso espritual, que é a casa da bõa consciência, et cetera.

Eu, sendo pecado e mui mezquinho, desterrado do paraíso terreal das mui doces deleitações, polo pecado dos primeiros padres, e lançado em no vale da mezquindade dêste mundo, padecia enel muitas coitas e trabalhos e minguas e tribulações sem conto. E, como quer que fossem grande mal e agravamento a mi, coitado, as pressas corporaes deste segre, muito mais era grande a minha tribulaçom e mesquindade porque a minha alma era desterrada do seu paraíso espritual, que ham as almas santas enesta vida, do qual se trespassam ao paraíso celestial.
Êste paraíso espritual da alma é a casa da boa consciência, em que é tanta a abondança de paz, que a abastença obedece e serve aa castidade, e a devaçom se acosta aa oraçom: e ali foga a humidade em no temor de Deus, e a pureza há folgança em o amor do Senhor Deus. Ali há limpeza do coraçom com a paz de Jesu Cristo per alegria, e a fé pura folga em na verdade. Ali a justiça despoẽ e ordena todas as cousas brandamente, e a temperança as tempera concordadamente. Ali a sabedoria ensina e a fortaleza afirma e a abstinência desseca toda çugidade de pecado e a esperança conforta e a humildade e a paciência reinam. Ca ali é o reino de Deus e o paraíso, u é o ajuntamento das virtudes; e porém a alma do homem virtuoso é em paraíso espritual enesta vida presente.
Dêste paraiso mui deleitoso era eu, mesquinho, desterrado, e lançado em na profundeza do lixo dos pecados, ca em na minha alma nom era paz nem assessêgo; mais era movida e abalada com os movimentos turvos da carne, e eu queimado era com as chamas dos acendimentos carnaes, e movediço era a todo odor luxurioso. O meu esprito era derribado e abaixado sô a carne, sem orvalho de limpeza; a minha carne era faagueira aas deleitações carnaaes e desobediente aos usos e trabalhos esprituaes e ajudador dos meus contrairos.
Afastado era do assessêgo divinal, movediço aas injúrias que me fezerom e com toda persiguiçom. Nom havia firmeza da mente em nenhuũa cousa de boa-andança nem de contraíra. Em tal guisa era o meu estado, que me parecia que jazia em o inferno; ca já começava de sentir aqui, em esta vida presente, as penas infernaaes e todo era cercado de mui grandes trevas, que estavom e andavom sempre arredor de mi, em guisa que me parecia que sempre estava em lugar treevoso.

Autor: Anónimo.
Nome da obra: Boosco deleytoso.
Data: Final do século XIV ou início do século XV.
Local: Portugal.
Imagens: Biblioteca Nacional de Portugal.