O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)
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III Evento Internacional
Aconselhar e prescrever em terras cristãs

20,21,22 e 23 de setembro de 2021

Programação
20.09.2021
Horário Tema Palestrante(s)
08h45 Abertura e Apresentação do Banco de Dados "Obras Pastourais e Doutrinárias" Prof. Dr. Leandro Alves Teodoro (UNICAMP/UNESP)
09h00 Mesa 1: Recomendações diocesanas e senhoriais Profa. Dra. Maria João Branco (IEM/Universidade Nova de Lisboa) - Regressando aos sínodos diocesanos: norma, terminologia e prescrição nas dioceses portuguesas do século XIII

Profa. Dra. Fátima Regina Fernandes (UFPR) - Senhorio natural régio frente aos Iura Propria na tardo medievalidade ibérica

Mediação: Prof. Dr. Leandro Alves Teodoro (UNICAMP/UNESP)
11h00 ST 1: O “engenho” do artista: modelos e preceptivas do saber artístico dos séculos XV a XVIII Profa. Dra. Sarah Dume - Um classicismo descarnado? Notas sobre a arquitetura portuguesa quinhentista às lentes de um tratado do século XVI.

Profa. Sara Gonçalves Machado - "Saudades de D. Ignez de Castro", poema de Maria de Lara e Meneses, a herança do tema inesiano de Camões e de António Ferreira e a sua visão sob um ponto de vista feminino

Profa. Renata de Jesus Aragão Mendes - Gil Vicente e a defesa da política dos monarcas D. Manuel I e D. João III

Coordenadores: Sarah Dume (UNICAMP) e Mateus Alves Silva (UNICAMP)
13h30 Mesa 2: Recomendações para o fortalecimento da alma Profa. Dra. Adeline Rucquoi (CNRS) - Los manuales de confesión: consejos para el confesor, prescripción para el penitente (siglos XIII-XV)

Profa. Dra. Armênia Maria de Souza (UFG) - D. Juan Manuel de Castela (1282-1348) e El libro de los Estados: uma análise sobre preceitos religiosos e políticos

Prof. Dr. Francisco José Diaz Marcilla (IEM/Universidade Nova de Lisboa) - Livros para ser bom cristão: os casos de Granada, Congo e Canárias a finais da Idade Média

Mediação: Dra. Ana Carolina Machado de Souza (UNICAMP)
16h00 ST 4: A privança como instrumento de poder: aconselhar, prescrever e dominar no Ocidente Medieval (X-XV) Maria Júlia Guimarães Salgado - A autoridade feminina de Santa Teresa D’Ávila ao reformar a Ordem dos Carmelitas e ao fundar mosteiros pela Espanha no século XVI.

Letícia Daniele Diniz Vitor - Considerações acerca da proliferação dos Pecados da língua e da presença judaica em Castela ( séculos XIII e XIV)

Prof. Dr. Álvaro Mendes Ferreira - Inquiridores e Censuais em Perspectiva Comparada: inquirições afonsinas e os censuais brandemburgueses

Prof. Matheus Bastos Tarjano Santos - Enquadramento Senhorial da Natureza: as coutadas régias na ascensão de Avis ao trono português|

Coordenadores: Ana Luísa Lourenço (UNB) e Thiago Magela (UFF)
21.09.2021
Horário Tema Palestrante(s)
09h00 Mesa 3: Prescrições para as mulheres Profa. Dra. Maria Filomena Andrade (Universidade Aberta/Portugal) - Seguir, Obedecer, Contemplar: A formação da "Ordem das Irmãs Pobres" na Idade Média

Prof. Dr. Marcelo Lima (UFBA) - Poderes, corpos e performances de gênero no Tratado en defensa de virtuosas mujeres de Diego de Valera

Mediação: Profa. Dra. Carolina Coelho Fortes (UFF)
11h00 ST 1: O “engenho” do artista: modelos e preceptivas do saber artístico dos séculos XV a XVIII Profa. Dra. Maria Luiza Zanatta - Arte e Engenho na tratadística de Francisco de Holanda (c.1518-1584)

Profa. Dra. Maria Cândida Ferreira de Almeida - Retórica: del arte de la persuasión a modelo para la forma

Prof. Dr. Mateus Alves Silva - “He Ley do Reyno; e a melhor lei he sabella observar” – normativas do fazer arquitetônico no Império Português entre os séculos XVII e XVIII

Coordenadores: Sarah Dume (UNICAMP) e Mateus Alves Silva (UNICAMP)
14h00 ST 6: Conselho e aconselhamento na Península Ibérica Prof. Dr. Carlos Eduardo Zlatic (NEMED-Universidade Federal do Paraná/UFPR) - Poder e escrita: as composições entre o rei D. Dinis e o infante D. Afonso, senhor de Portalegre (1281-1312)

Prof. Dr. Dirceu Marchini Neto (Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP) - As prescrições régias e pontifícias nas doações e privilégios concedidos à Ordem Militar do Hospital em Portugal (Séculos XII-XV)

Prof. Dr. Douglas Mota Xavier de Lima Universidade Federal do Oeste do Pará - D. Afonso, conde de Barcelos e duque de Bragança (c.1371-1461), e as ambivalências do aconselhamento no Portugal quatrocentista

Prof. Dr. Luciano José Vianna (Universidade de Pernambuco/UPE) - Conselhos sobre a educação política medieval no Livro da Doutrina

Prof. Dr. Marcello José Gomes Loureiro (Escola Naval/EN) - “Eu, o sábio, tenho por amigo a Prudência”: aconselhar e deliberar nas monarquias ibéricas do século XVI

Profa. Dra Miriam Cabral Coser (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UNIRIO) - Aconselhamento e modelos femininos nas crônicas de Avis (Portugal, séc. XV)

Prof. Dr. Néstor Vigil Montes (Universidad de Murcia) - El papel de los consejeros en la construcción de la política exterior castellana en época bajomedieval

Coordenador: Prof. Dr. Douglas Mota Xavier de Lima
22.09.2021
Horário Tema Palestrante(s)
09h00 Mesa 5: Prescrições para combater heresias e proteger a conduta eclesiástica Profa. Dra. Maria do Rosário Morujão (Universidade de Coimbra) - Normas de conduta eclesiástica em tempos medievais: os estatutos do cabido da Sé de Coimbra de 1454

Prof. Dr. Leandro Rust (UNB) - "Para que não bebais do cálice dos demônios, reconhecei o corrupto!": conflito de normas e manipulação da percepção política nos Libri Tres Adversus Simoniacos (c.1058)

Mediação: Prof. Dr. Douglas Mota Xavier de Lima (UFOPA)
11h00 ST 1: O “engenho” do artista: modelos e preceptivas do saber artístico dos séculos XV a XVIII Profa. Dra. Maria Cláudia Orlando Magnani - Letras simbólicas e Sibilinas: uma orientação iconográfica para as sibilas de Diamantina

Profa. Valéria Sávia Tomé França - A produção da pintura de quadratura em Vila Rica e Mariana entre 1750 e 1830

Profa. Dra. Luciana Giovannini - A concepção de cúpulas imaginárias na Capitania de Minas Gerais (1760-1787): assimilação e interpretação do conteúdo presente nos tratados de arte

Coordenadores: Sarah Dume (UNICAMP) e Mateus Alves Silva (UNICAMP)
13h30 Mesa 4: Recomendações de São Tomás de Aquino Prof. Dr. David Nogales Rincón (Universidad Autónoma de Madrid) - Del reino de Chipre a la Corona de Castilla. Las traducciones al castellano De regno ad regem Cypri de Tomás de Aquino y sus contextos de recepción

Profa Dra. Terezinha Oliveira (UEM) - A observância à lei como condição de ser cristão, segundo Tomás de Aquino

Mediação: Prof. Dr. Francisco José Diaz Marcilla (Universidade Nova de Lisboa)
16h00 ST 2: Aconselhar em Terras Cristãs: períodos medieval e moderno, permanências e rupturas (XV-XVII) Profa. Bertina Salliu - The origin of the Protestant Reformation in Europe: the fundamental principles of Early Protestant Theology

Prof. Andre Silva Ranhel - Conselhos médicos na corte de Juan II: Alonso de Chirino e suas prescrições para o bom cuidado de si na coroa de Castela (século XV).

Profa. Nara Barrozo Witzler - Conselhos de corpo e alma: prescrições e remédios contra heresias e superstições em tratados espanhóis dos séculos XVI e XVII|

Coordenadores: Franco A Biondi (UNICAMP), Lívia Torquetti (UNICAMP) e Andrezza Canova Pigaiani (UNICAMP)
16h00 ST 4: A privança como instrumento de poder: aconselhar, prescrever e dominar no Ocidente Medieval (X-XV) Profa. Dra. Renata Vereza - As estratégias de propaganda alfonsina na legitimação das suas relações com a aristocracia castelhana em meados do século XIII.

Prof. Renato Toledo Silva Amatuzzi - Instrumentos de poder e organização institucional: Os ofícios domésticos nas ordenações de corte de Pedro IV de Aragão (1344).

Prof. Dr. Almir Marques de Souza Júnior - Monarquia como objeto de disputa entre as elites senhoriais.

Prof. Éderson José de Vasconcelos - A fonte Histórica de Al-Andalus de Ibn Al-Kardabus

Coordenadores: Ana Luísa Lourenço (UNB) e Thiago Magela (UFF)
16h00 ST 5: Instruir em letras cristãs na América colonial Prof. Dr. Manuel Ortuño Arregui - El "confesionario breve" de Fray Alonso de Molina (1565).

Prof. Dr. Luís Guilherme Assis Kalil - Os indígenas e a fé cristã na Peregrinación de Bartolomé Lorenzo, de José de Acosta (1586)

Profa. Dra. Ane Luíse Silva Mecenas Santos - A oficina de Miguel Deslandes e os escritos jesuíticos em Portugal na segunda metade do século XVII

Coordenadores: Maria Emília Granduque José (UNESP) e Ana Carolina Machado de Souza (UNICAMP)
19h30 ST 3: A ortodoxia e a defesa da fé cristã na Idade Média Guilherme Barbosa dos Santos (Unicamp) - O casamento na mira do opúsculo “De Seta Machometi” (século XIII).

Prof. Eduardo Lima de Souza (UNESP/ Franca) - Práticas penitenciais no Portugal dos séculos XIV e XV.

Diovani Matheus Marques (UNICAMP) - Os leigos nas constituições sinodais: reforma do mundo laical português (séculos XV e XVI)

Profa. Raíssa Toledo de Oliveira (UFPE) - Práticas de justiça em Pernambuco (séc. XVI).

Coordenadores: Patrícia Antunes Serieiro Silva (USP) e Thiago Henrique Alvarado (UNESP)
23.09.2021
Horário Tema Palestrante(s)
09h00 Mesa 6: Prescrições médicas Profa. Dra. Dominique de Courcelles (Université Paris Sciences Lettres ENS-CNRS) - Arqueología medical: el arte de la oniromancia

Profa. Dra. Eliane Deckmann Fleck (UNISINOS) - Sobre "os remédios que se devem aplicar aos enfermos": prescrições médicas em receituários jesuítas do Setecentos.

Profa. Dra. Alexandrine Marie De La Taille Tretnville Urrutia (Universidad de los Andes) - Mujeres y prevención: el rol de espacios y prácticas femeninas en el desarrollo de la salud pública chilena (1750-1877)

Mediação: Profa. Dra. Maria Emília Granduque José (UNESP)
13h30 Mesa 7: Corrigir e disciplinar nos tempos modernos Profa. Dra. Zulmira C. Santos e Paula Cristina Almeida Mendes (Universidade do Porto) - Ensinar/Doutrinar e disciplinar antes e depois de Trento: textos e práticas

Prof. Dr. Bruno Feitler (UNIFESP) - Polêmica anti-judaica enquanto literatura prescritiva. A quem se dirigiam os tratados contra os judeus publicados em Portugal? (sécs. XVI-XVIII)

Prof. Dr. André Figueiredo Rodrigues (UNESP) - O clero e a Inconfidência Mineira: atos de prescrever rebeliões nas Minas Gerais do final do século XVIII

Mediação: Prof. Dr. Leandro Alves Teodoro (UNICAMP/UNESP)
16h00 ST 2:Aconselhar em Terras Cristãs: períodos medieval e moderno, permanências e rupturas (XV-XVII) Profa. Raquel Baptista Mariani - A educação como promotora de virtude no Égalité des Hommes et des Femmes de Marie de Gournay

Prof. as Dr.as Adriana Maria de Souza Zierer / Solange Pereira Oliveira - Aconselhar e instruir para a salvação da alma cristã na visão de Túndalo

Prof. Victor Laubenstein - Entre cristãos e kirishitan: modelos evangelizadores e práticas religiosas no início das missões no Japão (1549-1579)

Profa. Rachel Meyrelles Gonçalves Lima - Ensinando por textos, as Narrativas Medievais de Viagens ao Além no mosteiro de Alcobaça: Navegação de São Brandão, Conto de Amaro e Viagem de Trezenzónio.

Coordenadores: Franco A Biondi (UNICAMP), Lívia Torquetti (UNICAMP) e Andrezza Canova Pigaiani (UNICAMP)
19h30 ST 3: A ortodoxia e a defesa da fé cristã na Idade Média Prof. Dr. Gesner Las Casas Brito Filho (Labora-USP) - Apocalípticos e coloridos: apontamentos sobre o uso de cores no Apocalipse de Lorvão (Manuscrito Ordem de Cister, Mosteiro de Lorvão, códice 44).

Profa. Ana Carolina Picoli Sotocorno (UNESP/Franca) - A análise de Discurso Crítica como metodologia para fontes tardo-antigas: um exercício em Historiae Adversus Paganos (século V).

Prof. Bruno Casseb Pessoti (UFBA). - Embates entre o laico e o religioso numa disputa médica do século X.

Prof. Alan Rebouças Pereira (UFBA) - Saberes e dizeres: o discurso normativo na Península Ibérica.

Coordenadores: Patrícia Antunes Serieiro Silva (USP) e Thiago Henrique Alvarado (UNESP)

Simpósios Temáticos

As Inscrições para apresentação em Simpósios Temáticos encerraram no dia 05 de Setembro .

11:00

ST1: O “engenho” do artista: modelos e preceptivas do saber artístico dos séculos XV a XVIII

Na obra “Vocabulario portuguez, e latino ...” de Rafael Bluteau (1728), o conceito “engenho” define-se por “Força natural do entendimento, com a qual o homem percebe prompta, & facilmente o que lhe ensinão, aprende as sciencias, & artes mais difficultosas, inventa, & obra muytas cousas (...)" (BLUTEAU, 1728, p. 117).
Partindo desse conceito amplamente presente nos tratados artísticos do século XV ao XVIII, pretendemos discutir neste simpósio os modelos, valores e preceptivas que nortearam a produção artística (Arquitetura, Pintura, Escultura, Música, entre outras artes) da Península Ibérica e seus domínios entre a Baixa Idade Média e a Primeira Modernidade, buscando compreender de que forma o “engenho” desses artistas construiu-se empiricamente por meio da circulação de saberes que se constituíram como cânones prescritivos de práticas, técnicas e teorias desenvolvidas ao longo dos séculos XV até o XVIII. Desde a prática descritiva por meio de manuscritos e tratados até as múltiplas linguagens artísticas, pretendemos compreender quais caminhos foram percorridos pelos artistas e teóricos portugueses e espanhóis no campo das artes e em que espaços sociais e culturais adquiriram o conhecimento que fundamenta suas obras. Buscamos também compreender de que forma as prescrições do mecenato régio, eclesiástico e privado atuaram sobre o trabalho destes artistas, observando tais profissionais enquanto parte de projetos expansionistas desses grandes reinos católicos e da manutenção das estruturas sociais.

16:00

ST2: Aconselhar em Terras Cristãs: períodos medieval e moderno, permanências e rupturas (XV-XVII)

Na história do cristianismo, o ato de “aconselhar” assumiu diferentes manifestações que procuraram instruir sobre valores morais essenciais à fé cristã, tidos como hábitos distintivos de sua adequada compreensão e vivência. Durante a Idade Média e Moderna, termos como “aconselhar”, “recomendar”, “exortar”, “instruir”, “formar” e “edificar” eram recorrentes em seus discursos, e formavam o principal vocabulário empregado para induzir comportamentos e realizar sugestões, as quais versavam desde as melhores formas de se conduzir a vida individual à correta orientação dos assuntos de governo.
Por volta dos fins do século XI, a pauta da “reforma” da igreja, estendida a todos os membros do “corpo cristão”, instigava o ideal da pregação, principal ensejo para a formulação de novas ordens monásticas e movimentos leigos que traziam, em seu cerne, o compromisso público com a veiculação da palavra como meio de reconduzir a sociedade aos modelos do cristianismo primitivo, ou, ao menos, às necessidades percebidas por seus contemporâneos como respostas aos principais problemas vivenciados por seus contextos. A pregação, assim, se assumiu enquanto fator distintivo da “conversão”, palavra que antes do século XVI, significava, sobretudo, a adesão a uma vida de perfeição, propagada pelas exortações, compreendidas como forma de “aconselhar”, as quais, por sua vez, estão na base das transformações vislumbradas na passagem do mundo medieval para o moderno.
Intrinsecamente relacionada à pregação, tinha-se a veiculação do discurso escrito pelo gênero dos manuais e dos exemplos, orientados tanto para o encorajamento dos preceitos religiosos, associados de forma comum às expressões da religiosidade monástica e leiga, quanto para o fornecimento de conteúdo e materiais de apoio aos pregadores. Os primeiros, os “manuais”, podem ser entendidos como traduções dos libelli, “pequenos livros”, cuja característica física permitia que estivessem à mão, e servissem, de forma prática, como guias e meios de instrução aos seus leitores. Os segundos, gênero dos exemplos, procuravam prover aos pregadores repertórios de vida de santos e biografias de notável valor moral, com o intuito de serem empregados em seus discursos e ensinamentos, de modo a exortarem seus ouvintes a reproduzirem, dentro de interpretações específicas, os modelos apresentados por suas histórias. A sua relação pode ser bem entendida pelo emprego da citação de Cassiodoro, “propagar as palavras de Deus pelas mãos”, que permite entrever o fim último da formulação e cópia desses gêneros escritos.
Com o advento das reformas do século XVI, os discursos, tanto orais quanto escritos, assumiram o principal papel na disseminação da palavra de Deus e na reforma moral e dos costumes, refletindo o anseio de conduzir os fiéis em um caminho de conformidade com as prescrições das Escrituras. No âmbito católico, para além do âmbito coletivo, tem-se a intensificação das confissões individuais. Nas perspectivas então construídas, a análise e controle sobre a consciência e a conduta cristã procuraram instruir os pontos essenciais das diferentes ortodoxias.
Os desdobramentos oriundos dos anseios pela conversão a hábitos condizentes com uma vida autenticamente religiosa e, posteriormente ao século XVI, com os ideais expressos pelas distintas confessionalizações, engendram uma nova expressão das pregações: as atividades missionárias. Essas, ainda que se afastassem das preocupações com a conversão no seio da cristandade, compartilharam a mesma gênese nos conselhos, procurando instruir costumes e concepções a sociedades externas à Europa, e que se efetiva, sobretudo, pela correção coercitiva do que era entendido como “errôneo”, “bárbaro” e “inadequado”.
Não inteiramente distintos da pregação escrita e moral, há o surgimento do gênero dos Espelhos de Príncipes, cuja especificidade diz respeito à orientação aos soberanos e, de forma mais ampla, aos responsáveis pelo papel da condução dos assuntos públicos. Adotados, principalmente, pelos humanistas, esse gênero reflete a valorização do movimento pela erudição e pelo cultivo das virtudes, destinado, com especial ímpeto, àqueles tidos como expressões máximas do corpo social. Esses, tidos por sua posição de destaque como os mais capazes de fomentar ideais como justiça, harmonia e devoção, representarem o principal objetivo dos humanistas, os quais se atribuíram o papel de conselheiros, e procuraram a reforma de toda a comunidade cristã partindo de seus soberanos.
Em meio a essas mudanças perceptíveis no período, nota-se uma transformação no modo de ser dos homens, compelidos a novas regras de comportamento. Com isso, os conselhos também se direcionaram às formulações de comportamento que buscavam direcionar e padronizar o viver em sociedade, como as cortes e espaços públicos. O aconselhamento, portanto, ultrapassava o espaço do sagrado e também fazia parte de um processo de uniformizar o modo de se portar dentro da laicidade.
Assim, o objetivo desta proposta é permitir um espaço de discussão a respeito das diferentes manifestações do ato de “aconselhar” entre a passagem da Idade Média para a Moderna, contemplando as transformações e permanências evidenciadas entre os dois períodos. Como se nota, a ideia de reforma, pregação e conformidade de hábitos, entendidos aqui enquanto principais expressões da ideia de “conselho”, envolveram diferentes meios e formas, que permitem contemplar tanto os aspectos da produção oral e escrita, bem como as esferas distintivas, formuladas pelos períodos, entre “secular” e “religioso”; entre os diferentes “corpos” e espaços da sociedade cristã; entre as distinções percebidas, por diferentez matizes, entre o “errôneo” e “correto”; e, por fim, entre as diferentes intensidades possíveis ao ato de aconselhar, capaz de expressar tanto o reforço de convensões quanto choques violentos entre diferentes perspectivas.

14:00

ST6: Conselho e aconselhamento na Península Ibérica

Em finais da Idade Média acompanha-se o emergir de uma pluralidade de instâncias de legitimação do príncipe que contribuirão para o processo de construção do poder monárquico e para as mutações que conduzirão à gênese do Estado moderno. De certo modo, tal processo se evidencia em torno da noção alargada de conselho, que abarca a gradativa institucionalização do Conselho real como órgão consultivo da administração central das monarquias, composto pelo conjunto de conselheiros ou privados do rei, homens cada vez mais influentes no direcionamento das políticas reais e no funcionamento da própria monarquia; e a dimensão do aconselhamento, abrangendo desde a prática de oferecer conselhos orais e escritos ao aconselhar como categoria do pensamento político ocidental presente na vasta literatura de caráter político, moral e pedagógico que visava orientar o exercício do poder régio, definir o bom governo e conduzir as ações dos homens engajados na cúria real. Essa dimensão, em especial, mobilizou o que Roger Chartier classificou como “ordem do discurso”, isto é, a profusão de discursos ditos e escritos através dos quais o poder monárquico foi representado entre o fim do medievo e o início da modernidade. Partindo dessas reflexões e da proposição geral do evento “Aconselhar e Prescrever em Terras Cristãs”, o Simpósio Temático “Conselho e aconselhamento na Baixa Idade Média” reunirá diferentes pesquisadores em torno das questões norteadores, explorando a dimensão político-institucional, diplomática e literária do conselho e dos conselheiros entre os séculos XIII e XVI na Península Ibérica.

Carlos Eduardo Zlatic (NEMED-Universidade Federal do Paraná/UFPR)
Dirceu Marchini Neto (Universidade Federal de São Paulo/UNIFESP)
Luciano José Vianna (Universidade de Pernambuco/UPE)
Marcello José Gomes Loureiro (Escola Naval/EN)
Miriam Cabral Coser (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UNIRIO)
Néstor Vigil Montes (Universidad de Murcia)

Abertura & Mesa 1

Mesa 2: Recomendações para o fortalecimento da alma - Aconselhar e prescrever em terras cristãs

Mesa 3: Prescrições para as mulheres - Aconselhar e prescrever em terras cristãs

Mesa 4: Recomendações de São Tomás de Aquino - Aconselhar e prescrever em terras cristãs

Mesa 5: Prescrições para combater heresias e proteger a conduta eclesiástica

Mesa 6: Prescrições médicas - Aconselhar e prescrever em terras cristãs

Mesa 7: Corrigir e disciplinar nos tempos modernos - Aconselhar e prescrever em terras cristãs

Inscrições encerradas