Veronica Orazi
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Tractado de la divinança
21 de setembro de 2019

Livro sinodal de Pedro de Cuéllar

 


Verbete

PEDRO DE CUÉLLAR, Bispo de Segóvia. Codex Canonum. Sinodales de Cuellar (Cânones Sinodais de Cuéllar). Segóvia: 1325.
 
No ano de 1325, o bispo de Segóvia, D. Pedro de Cuéllar, celebrou um sínodo em que foram promulgados três escritos que se complementavam: um livro sinodal, um conjunto de constituições sinodais e certas declarações. Enquanto o livro sinodal é a obra mais extensa dessas três e se configura como um manual de iniciação à doutrina católica, as constituições sinodais trazem à tona – como outros escritos do mesmo gênero desse período – matérias relativas à justiça eclesiástica, aos dízimos e aos ofícios divinos, proibindo categoricamente os leigos de celebrarem os ritos litúrgicos. Já as declarações, apesar de também retomarem temas abordados no livro sinodal, possuem outra ênfase, por serem uma miscelânea de respostas de D. Pedro de Cuéllar às petições realizadas pelos clérigos dessa prelazia. Foi nessas declarações que tal prelado respondeu aos clérigos acerca de questões por eles colocadas relativas, sobretudo, à gestão do dízimo, como forma de recolhimento e repartição. Trata-se de um sínodo ímpar na história das dioceses da Coroa de Castela, já que foi um dos poucos dessas plagas a legar, entre os séculos XIV e XV, uma série de prédicas com tal amplitude temática e consistência documental concernente à ação pastoral dos bispos da Idade Média.

Desses três opúsculos unidos pelo mesmo compromisso de orientar eclesiásticos da diocese de Segóvia, o livro sinodal é o que melhor define os planos moralizantes desse bispo e que permite ao leitor moderno conhecer uma política catequética em acessão na Castela do século XV. Numa época em que as dioceses ibéricas redefiniam seu plano de atuação junto aos leigos, o diferencial do sínodo de Pedro de Cuéllar foi o de divulgar o primeiro opúsculo catequético escrito em língua castelhana direcionado a ensinar aos clérigos, de maneira ordenada e sistematizada, os diferentes preceitos do Cristianismo, nomeadamente os mandamentos da lei de Deus, os sacramentos da Igreja, os benefícios das virtudes, os sete dons do Espírito Santo, os males dos pecados e a conduta ideal de um cura de almas. Além disso, esse opúsculo foi um dos primeiros a citar o concílio de Valladolid de 1322 celebrado pelo cardeal de Sabina, Guillaume Pierre Godin, no qual fora decretada, no mundo ibérico, a obrigatoriedade da confissão e da comunhão anuais – obrigatoriedade essa que havia sido instaurada, no ocidente cristão, pelo cânone 22 do IV concílio de Latrão (1215).

Fixando em língua vernácula um vocabulário preciso acerca dos ritos litúrgicos católicos, como a própria palavra “transubstanciar”, o livro sinodal de Pedro de Cuéllar contribuiu para ampliar o alcance do poder pastoral da Igreja e dar um passo importante para atualizar as diretrizes eclesiásticas da Coroa de Castela.
Palavras-chave: ofício pastoral; mandamentos; sacramentos; transubstanciação; confissão penitencial; bispo; sínodo.
Leandro Alves Teodoro

UNICAMP
 
 

Trecho traduzido e modernizado

Nós, Dom Pedro, bispo de Segóvia, pela graça de Deus, desejamos ao cabido, a pessoas, cônegos, companheiros e a todos os outros clérigos do nosso bispado, saúde e benção. Vendo que o pastoral ofício que recebemos nos move para velar e cuidar dos nossos súditos e procurar seu proveito1 o tanto que pudermos,2 que o bem deles é para nós proveitoso,3 entendemos o tanto que nós temos de tomar algum pouco trabalho voluntário para o proveito deles, para dar-lhes folgura.4 Como vemos grande simplicidade na maior parte dos clérigos de nosso bispado que assim não entendem como devem os artigos da fé, nem os sacramentos, nem os mandamentos, antes trazendo-os pelos lábios a cada dia,5 não entendem o que dizem, nem sabem o que são. E, segundo o Sábio, ler e não entender é despreciar; por isso foi nossa vontade de pôr neste caderno algumas coisas em romance, pela sobredita razão, acerca dos artigos da fé, dos mandamentos, dos sacramentos e de outras coisas para esclarecimento6 dos ditos simples clérigos que não entendem essas coisas, tal como é dito e era necessário.7

E por razão que diz S. Gregório que então se faz a obra robusta e forte quando o lugar em que ela se funda é forte e de bom solo; por isso como nós queremos dizer claramente8 algumas coisas aos ditos simples clérigos, convém que tomemos firme fundamento. E porque falamos escrito por ele, que é onde Jesus Cristo não está, que sem este fundamento não se pode obrar nada,9 que é começo de todas as coisas; portanto, convém que digamos algumas coisas acerca daquelas que os clérigos comumente têm necessidade de saber em razão daquele que é Criador do céu, da terra, e é Pai, Filho e Espírito Santo.

1 Pro é o mesmo que “proveito ou utilidade”. http://dle.rae.es

2 "en quanto pudieremos (...)".

3 “que el su bien dellos es a nós pro (...)”.

4 “folgura” é o mesmo que – em castelhano moderno “holgura”, em português seria “folgança”; no sentido de bem-aventurança.

5 A expressão “cada dia” pode ser lida como “todos os dias”.

6 alunbramiento

7que non lo entienden, asi como es dicho e era menester.”

8queremos dezir algunas cosas a declarimento de los dichos simples clérigos”. Com base no texto das Partidas de Afonso X, é possível deduzir que a expressão “dezir a (o) declarimento” referia-se a dissertar minuciosamente sobre algo. Num contexto em que aborda o peso das palavras pronunciadas nas contendas entre os homens Diz o rei Sabio: “sinificamiento, o declaramiento de palabra, tanto quiere dezir, como demostrar e demostrar e despaladinar claramente, el proprio nome de la cosa sobre que es la contenda (...)” Partidas III, p. 537.

9 Cor. 3, 11; C. 1, q. 1, c. 26.

 
Autor: Pedro de Cuéllar (bispo de Segóvia).

Nome da obra: Codex Canonum. Sinodales de Cuellar (Cânones sinodais de Cuéllar).

Data: 1325.

Local: Segóvia.

Imagens: Biblioteca Nacional de España.

 

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