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Carta e Breve Compêndio / Carta y Breve Compendio
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28 de setembro de 2020

Livro de Alexandre / Libro de Alexandre

Libro de Alexandre
 


Verbete

anônimo. Libro de Alexandre. Princípios do século XIII (1220-1225).
 
O Livro de Alexandre, de princípios do século XIII, é uma obra misteriosa e inaugural. Misteriosa é a questão de sua autoria, para a qual vários nomes foram considerado sem que se encerrasse o debate. Alguns aparecem mencionados em um dos dois manuscritos conservados (além de três fragmentos independentes), como Juan Lorenzo de Astorga no manuscrito de Osuna ou Gonzalo de Berceo no manuscrito de Paris. Até uma hipótese coletiva vinculada a Universidade de Palencia foi sugerida. Mais recentemente, o autor foi vinculado às chancelarias de Alfonso VIII ou Fernando III. Neste debate aberto, em contrapartida, tornou-se clara a sólida formação desse "simples clérigo", que soube manejar vários materiais com grande erudição, sob uma poética exposta em seu segundo dístico (já clássica em qualquer manual de literatura medieval espanhola). Nela alude a cuaderna via (a tetrástofa monorrima), desde então, vinculada ao que tradicionalmente chamaremos de "Mester de clerecía” e cuja forma será reproduzida em uma série de obras que reúnem, entre outras, o Livro de Apolônio, o Poema de Fernán González, os Milagres de Nossa Senhora de Gonzalo de Bercero, o Rimado de Palácio do Chanceler Ayala ou o Livro de Bom Amor de Juan Ruiz.

Além dos critérios formais, o Livro de Alexandre também inaugura a materia alexandrina em castelhano. Trata-se de uma biografia ficcional de Alexandre Magno desde seu nascimento até sua morte, à qual são adicionadas várias digressões e precisões lendárias. As batalhas mais importantes da conquista da Macedônia aparecem junto com seções enciclopédicas e até histórias intercaladas. Para articular esse relato épico-didático, o autor inspira-se principalmente no Alexandreis de Gautier de Châtillon (baseado, por sua vez, na Historiae de Quinto Curcio), da qual se afasta com frequência para ampliar as partes que mais lhe interessam: por exemplo, a coroação do protagonista (Roman d’Alexandre), as maravilhas do Oriente (Historia de preliis J2), a história de Tróia (Ilias Latina e Excidium Troiae) e o lapidário (Etimologías de San Isidoro).

As facetas sábia e guerreira de Alexandre articulam o relato desde o princípio, seja pela investidura cavalheiresca do herói ou pelos conselhos de seu professor Aristóteles, que se referem às artes liberais. Alexandre é o cavaleiro medieval por antonomásia ao vencer o exército persa de Dario ou ao ganhar o duelo com o rei indiano Poro. À sua fortitudo acrescenta-se sua sapientia: é o sábio Alexandre quem conta a história de Tróia diante do túmulo de Aquiles, habilmente responde às cartas de seus adversários e tranquiliza seus soldados, assustados com um eclipse. Se, até então, o macedônio incorpora um modelo fundamentalmente positivo, seu desejo de conquista o leva a transgredir os limites do ecúmeno. De fato, depois de derrotar seus antagonistas, o herói explora o fundo do mar, permitindo-lhe assim refletir sobre a soberba humana. É quando então o próprio poeta e a natureza arremetem contra ele. Natura desce ao inferno e fala com Belzebu sobre a ameaça que Alexandre representa. A condenação divina é confirmada por outro ato excessivo do herói, que doma uns grifos para explorar o céu. Este tríptico (expedição marítima, infernal e aérea), além de seu aspecto moralizante, contém passagens que abundam em referências bíblicas, por exemplo, na descrição da cidade do inferno com seus pecados capitais ou no mapa antropomórfico do mundo. Assim, o Livro de Alexandre nos apresenta um herói modelo cujos desejos de conquistas (terrenais e sapienciais) delatam progressivamente seu pecado da soberba, em um claro eco – que o poeta não silenciará – a Lúcifer. Não por isso deixa o autor de sentir certa admiração por seu herói, cuja morte é descrita com benevolência, antes de encerrar o relato fazendo referência à salvação da alma e ao desprezo do mundo terrenal.

De maneira geral, as digressões enciclopédicas e a condenação divina demonstram a vontade didática da obra, não apenas como um possível regimento de príncipes, senão, mais amplamente, como uma fonte de conhecimento para um público letrado. Assim é proporcionado um modelo exemplar para os reis, o qual permite, por sua vez, denunciar o comportamento pecaminoso do soberbo, em conformidade com a moral cristã. Da perspectiva régia, este Alexandre medieval está adequadamente inserido em um século XIII testemunha da Reconquista e da progressiva unificação dos reinos hispânicos, daí os possíveis paralelos com Afonso VIII ou Fernando III. Quanto à dimensão moral e religiosa do texto, foi vista como uma contribuição para a formação do novo clérigo, fruto do desenvolvimento urbano e do auge das universidades. Em suma, o autor anônimo do Livro de Alexandre converte a expedição alexandrina em uma incursão épica e moral cujo didatismo ressoa fortemente em cada uma das façanhas de seu herói.
El Libro de Alexandre, de principios del siglo XIII, es una obra misteriosa e inaugural. Misteriosa es la cuestión de su autoría, para la cual se han barajado varios nombres sin cerrar el debate. Algunos aparecen mencionados en uno de los dos manuscritos conservados (además de tres fragmentos independientes), así Juan Lorenzo de Astorga en el manuscrito de Osuna o Gonzalo de Berceo en el manuscrito de París. Incluso se ha sugerido una hipótesis colectiva vinculada a la Universidad de Palencia. Más recientemente, se ha vinculado al autor con las cancillerías de Alfonso VIII o Fernando III. En este debate abierto, en cambio, ha quedado clara la formación sólida de este “simple clérigo”, que supo manejar varios materiales con gran erudición y bajo una poética expuesta en su segunda copla (ya clásica en cualquier manual de literatura medieval española). En ella alude a la cuaderna vía (o tetrástofo monorrimo), vinculada desde entonces a lo que llamaremos tradicionalmente el “Mester de clerecía” y cuya forma se reproducirá en una serie de obras que reúne, entre otras, el Libro de Apolonio, el Poema de Fernán González, los Milagros de nuestra señora de Gonzalo de Bercero, el Rimado de Palacio del Canciller Ayala o el Libro de buen amor de Juan Ruiz.

Más allá de criterios formales, el Libro de Alexandre también inaugura la materia alejandrina en castellano. Se trata de una biografía ficcional de Alejandro Magno desde su nacimiento hasta su muerte, a la cual se añaden varias digresiones y precisiones legendarias. Aparecen las batallas más importantes de la conquista del macedonio junto a apartados enciclopédicos e incluso historias intercaladas. Para articular este relato épico-didáctico, el autor se inspira principalmente de la Alexandreis de Gautier de Châtillon (basada a su vez en las Historiae de Quinto Curcio), de la cual se aleja con frecuencia para ampliar las partes que más le interesan: por ejemplo, la coronación del protagonista (Roman d’Alexandre), las maravillas de Oriente (Historia de preliis J2), la historia de Troya (Ilias Latina y Excidium Troiae) y el lapidario (Etimologías de San Isidoro).

Las facetas sabia y guerrera de Alejandro articulan el relato desde el principio, sea a través de la investidura caballeresca del héroe o los consejos de su maestro Aristóteles, que remiten a las artes liberales. Alejandro es el caballero medieval por antonomasia al vencer el ejército persa de Darío o al ganar en duelo al rey indio Poro. A su fortitudo se añade su sapientia: es el Alejandro sabio quien relata la historia de Troya delante de la tumba de Aquiles, contesta con destreza a las cartas de sus adversarios y tranquiliza a sus soldados, asustados por un eclipse. Si, hasta entonces, el macedonio encarna un modelo fundamentalmente positivo, su anhelo de conquista lo lleva a transgredir los límites de la ecúmene. En efecto, tras derrotar a sus antagonistas, el héroe explora los fondos marinos, permitiéndole así reflexionar sobre la soberbia humana. Es entonces cuando el propio poeta y Natura arremeten contra él Natura baja a los infiernos y platica con Belcebú acerca de la amenaza que representa Alejandro. La condena divina es confirmada por otro acto desmesurado del héroe, quien doma unos grifos para explorar el cielo. Este tríptico (expedición marina, infernal y aérea), además de su vertiente moralizadora, contiene pasajes que abundan en referencias bíblicas, por ejemplo en la descripción de la ciudad de los infiernos con sus pecados capitales o en el mapamundi antropomórfico. Así pues, el Libro de Alexandre nos presenta a un héroe modélico cuyos anhelos de conquista (terrenales y sapienciales) delatan progresivamente su pecado de soberbia, en un claro eco – que el poeta no callará – a Lucifer. No por ello deja el autor de sentir cierta admiración por su héroe, cuya muerte se describe con benevolencia, antes de cerrar el relato haciendo referencia a la salvación del alma y al desprecio del mundo terrenal.

De manera general, las digresiones enciclopédicas y la condena divina demuestran la voluntad didáctica de la obra, ya no solamente como posible regimiento de príncipes, sino, más ampliamente, como una fuente de conocimiento para un público letrado. Se proporciona así un molde ejemplar para los reyes, el cual permite, a su vez, denunciar el comportamiento pecaminoso del soberbioso, en adecuación con la moral cristiana. Desde la perspectiva regia, este Alejandro medieval se inserta adecuadamente en un siglo XIII testigo de la Reconquista y de la progresiva unificación de los reinos hispánicos, de ahí los paralelos posibles con Alfonso VIII o Fernando III. En cuanto a la dimensión moral y religiosa del texto, se ha visto como contribución a la formación del clérigo nuevo, fruto del desarrollo urbano y del auge de las universidades. En resumidas cuentas, el anónimo autor del Libro de Alexandre convierte la expedición alejandrina en una incursión épica y moral cuyo didactismo resuena con fuerza en cada una de las hazañas de su héroe.

Palavras-chave:Libro de Alexandre; Mester de clerecía; didacticismo; cuaderna vía; Alexandre Magno.
Palabras-clave:Libro de Alexandre; Mester de clerecía; didacticismo; cuaderna vía; Alexandre Magno.
Adrián Fernández González

Université de Fribourg
 
 

Edições modernas

Alexandre, ed. de Jorge García López, Barcelona, Crítica, 2010.

Libro de Alexandre, ed. de Juan Casas Rigall, Madrid/Barcelona, RAE/Galaxia Gutenberg, 2014.

Libro de Alexandre, ed. de Jesús Cañas, Madrid, Cátedra, 2000.

Arizaleta, Amaia, La translation d’Alexandre : Recherches sur les structures et les significations du Libro de Alexandre, París, Klincksieck, 1999.

Gaullier-Bougassas, Catherine (dir.), La fascination pour Alexandre le Grand dans les littératures européennes (Xe-XVIe siècle) : réinventions d’un mythe, Turnhout, Brepols, 2014, 4 tomos.

Michael, Ian, The Treatment of Classical Material in the «Libro de Alexandre», Manchester, University Press, 1970.


Trecho traduzido e modernizado

Transcrição: Senhores, se quiserdes a meu serviço se prender, Os serviría de bom grado, com minha arte. Porque o homem deve ser generoso com seus saberes. Se não, poderia ser culpado ou condenado.

Arte bonita trago, não é de menestrel. É arte sem pecado porque é de clerezia. Falar em curso ritmado, pela cuaderna via, com sílabas contadas que é grande maestria.

Quem quiser ouvir, toda minha crença, terá de mim consolo, ao cabo grande prazer. Aprenderá boas gestas para que saiba contar. Haverá por isso de ser muito conhecido.

Não quero trazer a vós um grande prológo nem grandes novas, logo ao conteúdo quero começar. Que o criador nos deixe bem informados. Se pecarmos em algo, ele nos deve valer.

Recriarei a história de um Rei nobre pagão, que foi muito esforçado e de coração vigoroso. Que conquistou todo o mundo pelas suas mãos. Tentarei, se lhe agrada, ser um bom escritor.

Sobre o príncipe Alexandre, que foi Rei da Grécia, foi generoso, valente e de grande sabedoria, venceu a Pório e a Dário, dois reis muito poderosos. E nunca se conheceu alguém tão resignado como ele.

O infante Alexandre logo em sua infancia, começou a demonstrar que seria de grande valia. Nunca quis mamar leite de mulher pebléia, se não fosse de linhagem ou de grande gentileza.

Grandes acontecimentos ocorreram quando este infante nasceu: O ar se alterou, o sol escureceu. Todo mar se revoltou, a terra tremeu. […]
Señores, se quisierdes mío seruiçio prender, querríauos de grado seruir de mío mester. Deue delo que sabe omne largo seer. Se no, podrié de culpa o en rieto caer.

Mester trago fermoso, non es de joglaría. Mester es sen peccado, ca es de clerezía. Fablar curso rimado por la quaderna uía, a síllauas cuntadas, ca es grant maestría.

Qui oyr lo quisier, a todo mío creer, aurá de mí solaz, en cabo grant plazer. Aprendrá bonas gestas que sepa retraer. Auer loan por ello muchos a coñosçer.

Non uos quiero grant prólogo nen grandes nouas fazer, luego ala materia me uos quiero coger. El criador nos lexe bien apressos seer. Si en aquel pecarmos, él nos deñe ualer.

Quiero leer un liuro de vn Rey noble pagano, que fue de grant esforço, de coraçón loçano. Conquistó todel mundo, metiol so su mano. Terne, selo compliere, que see bon escriuano.

Del prinçepe Alexandre, que fue Rey de Greçia, que fue franc e ardit e de gran sabençia, vençió Poro e Dario, dos reys de grant potençia. Nunca coñosçió ome su par en la sufrençia.

El infante Alexandre luego en su niñez, començó a demostrar que serié de grant prez. Nunca quiso mamar leche de mugier rrafez, se non fue de linage o de grant gentilez.

Grande signos contiron quando estinfant nasçió: El ayre fue canbiado, el sol escureçió. Todol mar fue irado, la tierra tremeçio. […]
 
Autor do documento: anônimo.

Nome da obra: Libro de Alexandre .

princípios do século XIII (1220-1225).

Imagens: Libro de Alexandre, manuscrito de Osuna (O), BNE VITR/5/10.

 

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