Tratado de Penitencia de Juan Martínez de Almazán
Tratado de Penitencia de Juan Martínez de Almazán
24 de janeiro de 2020
Oracional de Alonso de Cartagena
26 de fevereiro de 2020

Libro del conde Lucanor

 


Verbete

DOM JUAN MANUEL. Libro del conde Lucanor. Espanha: 1335.
 
Personagem excepcional por muitas razões, Dom Juan Manuel (1282-1348) foi possivelmente o nobre mais poderoso de seu tempo. Sobrinho do rei Alfonso X, o Sábio, estava emparentado diretamente com as famílias que ocuparam o trono de Castela durante vários séculos, assim como, por seus enlaces matrimoniais, com outras casas reais da Península. Viveu em uma época política, militar, espiritual e economicamente agitada, marcada por intrigas e conflitos; lutou contra os mouros e participou em uma das batalhas mais importantes do último período da Reconquista, a do Salado. Sua ambição o levou a ser não apenas testemunha, mas muitas vezes protagonista dos eventos cruciais da primeira metade do século XIV. Habilidoso tanto com as armas como com as letras, em um momento em que a nobreza ainda não costumava cultivar ambas, deixou-nos testemunho claro do alto grau de consciência que animava seu trabalho como escritor. Orgulhoso de sua estatura intelectual, fez o possível para deixar seu nome unido a suas criações, que chegaram a uma quinzena.

De todas as obras que nos restam de Dom Juan Manuel, o Libro del conde Lucanor é, sem dúvida, a que encontrou o êxito mais retumbante e duradouro. Não por acaso foi um dos poucos livros medievais impressos no Século de Ouro: considerava-se seu autor como um clássico pela perfeição de seu estilo e pela propriedade de sua língua, em uma época em que o castelhano como língua literária estava ainda em (trans)formação. O Libro del conde Lucanor é um dos textos mais importantes da literatura medieval. Ademais, abre a via para o conto como forma narrativa breve moderna: mesmo quando o autor se insere em uma tradição bem estabelecida, o faz de uma maneira altamente original e pessoal, portanto sua obra estabelece um marco.

O Libro del conde Lucanor é perfeitamente coerente e unitário – apesar da aparente heterogeneidade de suas partes –, fosse escrito de uma vez ou por etapas, porque seu propósito é unitário: a salvação da alma. Dois personagens fictícios atravessam toda a obra: um jovem conde chamado Lucanor e seu fiel conselheiro, Patrônio, homem com mais anos e experiência. Todos os dados apontam para a extraordinária perfeição da estrutura interna da obra, onde cada elemento ocupa o lugar que lhe corresponde, tanto do ponto de vista textual como supratextual (pense na simbologia que assume a numeração de exempla e provérbios, por exemplo).

Dependendo de como seja visto, o Libro autoriza uma divisão em duas, em três ou em cinco partes: em duas, se forem considerados os dois prólogos; em três, se o leitor se atém às diferenças formais entres suas partes (os exemplos, os provérbios, o tratado de doutrina cristã); em cinco, seguindo os «libros» que constam na obra (o dos enxiemplos, três de proverbios, um de doctrina). O próprio autor explica, nos prólogos, que a primeira parte (os 50 + 1 exempla) está destinada aos «homens não muito letrados», enquanto a segunda (os 100 + 50 + 30 proverbios) está destinada aos «homens de entendimento muito sutil», havendo uma gradação interna, ademais, entre os três «livros» de provérbios: a maior brevidade, maior dificuldade (oscuridad). Este afã de escuridão não é somente um recurso estilístico mas, sobretudo, um recurso moral; sendo o saber una arma potente, é necessário complicar a forma para que o conteúdo não seja mal interpretado pelos ignorantes. No entanto, a última parte da obra, constituída por um tratado de doutrina cristã, está destinada a todos, pois tem um propósito divulgativo mais geral: o autor estuda o homem, sua passagem pelo mundo e seu destino direcionado a Deus, que vigia os atos e as vontades de todos. Assim, o Libro del conde Lucanor combina ficção didática, provérbios e teoria religiosa em una gradação que parte do plano terrestre da realidade humana para chegar à realidade espiritual: saber se comportar no mundo, cumprir sua missão na terra, trabalhar bem e realizar as ações ditadas por seu estado social pessoal, permite não apenas salvaguardar a honra e manter sua fazienda, mas também ascender ao paraíso e salvar a alma.

Dom Juan Manuel, apesar de ter levado uma vida mundana e inclusive, em ocasiões, violenta, era homem de grande devoção. Manteve vínculos muito estreitos com os frades da ordem dos dominicanos, criada, junto com as outras ordens mendicantes, pouco mais de um século antes, após o IV Concílio de Latrão (1215). Fundou para eles um monastério na localidade de Peñafiel (próximo de Valladolid), onde o autor tinha um castelo que foi sua residência favorita, presente de seu primo, padrinho e tutor, o rei Sancho IV, o Bravo. No convento dos dominicanos de Peñafiel quiz ser enterrado e ali depositou o volume original de suas obras completas (perdidas em um incêndio no século XVIII). Não há dúvidas de que no monastério teve a seu alcance um ou outro manual de predicação, o ejemplario, como indica o décimo quarto exemplo do Libro del conde Lucanor, intitulado «Do milagre que fez santo Domingo quando predicou sobre o comerciante». A Igreja, através da predicação, foi um dos principais canais de difusão de relatos breves na Idade Média, além de uma adequada moralização; a influência do novo modelo homilético, baseado na inclusão de exempla nos sermões, é patente em dom Juan Manuel. A obra manuelina une a esta tradição os relatos chegados da Antiguidade (fábulas de Esopo) e do Oriente (prosa exemplar), assim como relatos herdados de um passado histórico peninsular mais ou menos remoto (de Álvar Fãnez a Saladino).

A influência do nobre castelhano nas letras será patente até o século XX, quando Jorge Luis Borges retomará o exemplum XI « Do que aconteceu a um deão de Santiago com dom Yllán, o grande mestre de Toledo», obra mestra da contística medieval, para criar outra obra mestra da narrativa breve de todos os tempos, El brujo postergado.
Personaje excepcional por muchas razones, don Juan Manuel (1282-1348) fue posiblemente el noble más poderoso de su tiempo. Sobrino del rey Alfonso X el Sabio, estaba emparentado directamente con las familias que ocuparon el trono de Castilla durante varios siglos, así como, por sus enlaces matrimoniales, con otras casas reales de la Península. Vivió en una época política, militar, espiritual y económicamente agitada, marcada por intrigas y conflictos; luchó contra los moros y participó en una de las batallas más importantes del último periodo de la Reconquista, la del Salado. Su ambición lo llevó a ser no solo testigo, sino a menudo protagonista de los eventos cruciales de la primera mitad del siglo XIV. Ducho tanto en las armas como en las letras, en un momento en el que todavía la nobleza no solía cultivar ambas, nos dejó testimonio claro del alto grado de consciencia que animaba su labor como escritor. Orgulloso de su estatura intelectual, hizo lo posible para dejar su nombre unido a sus creaciones, que alcanzan la quincena.

De todas las obras que nos quedan de don Juan Manuel, el Libro del conde Lucanor es, sin lugar a dudas, la que encontró el éxito más rotundo y duradero. No por nada fue uno de los pocos libros medievales que se imprimieron en el Siglo de Oro: se consideraba a su autor como a un clásico por la perfección de su estilo y por la propiedad de su lengua, en una época en la que el castellano como lengua literaria estaba todavía en (trans)formación. El Libro del conde Lucanor es uno de los textos más importantes de la literatura medieval. Además, abre la vía al cuento como forma narrativa breve moderna: aun cuando el autor se inserta en una tradición bien establecida, lo hace de una manera altamente original y personal, por lo que su obra marca un hito.

El Libro del conde Lucanor es perfectamente coherente y unitario –a pesar de la aparente heterogeneidad de sus partes–, haya sido escrito de una vez o por etapas, porque su propósito es unitario: la salvación del alma. Dos personajes ficticios atraviesan toda la obra: un joven conde llamado Lucanor y su fiel consejero, Patronio, hombre de más años y experiencia. Todos los datos apuntan a la extraordinaria perfección de la estructura interna de la obra, donde cada elemento ocupa el lugar que le corresponde, tanto desde el punto de vista textual como supratextual (piénsese en la simbología que asume la númeración de exempla y proverbios, por ejemplo).

Según como se le mire, el Libro autoriza una división en dos, en tres o en cinco partes: en dos, si se consideran los dos prólogos; en tres, si el lector se atiene a las diferencias formales entres sus partes (los ejemplos, los proverbios, el tratado de doctrina cristiana); en cinco, siguiendo los «libros» de los que consta (el de los enxiemplos, tres de proverbios, uno de doctrina). El propio autor explica, en los prólogos, que la primera parte (los 50 + 1 exempla) está destinada a «los omnes non muy letrados», mientras que la segunda (los 100 + 50 + 30 proverbios) está destinada a «los omnes de entendimiento muy sotil», habiendo una gradación interna, además, entre los tres «libros» de proverbios: a mayor brevedad, mayor dificultad (oscuridad). Este afán de oscuridad no es solamente un recurso estilístico sino, y sobre todo, un recurso moral; siendo el saber una arma potente, hace falta complicar la forma para que el contenido no sea malinterpretado por los ignorantes. Con todo, la última parte de la obra, constituida por un tratado de doctrina cristiana, está destinada a todos, pues tiene un propósito divulgativo más general: el autor estudia al hombre, su paso por el mundo y su destino dirigido a Dios, quien vigila los actos y las voluntades de todos. Así, el Libro del conde Lucanor combina ficción didáctica, proverbios y teoría religiosa en una gradación que parte del plano terrenal de la realidad humana para llegar a la realidad espiritual: saber comportarse en el mundo, cumplir su misión en la tierra, obrar bien y realizar las acciones dictadas por su personal estado social, permite no solo salvaguardar la onra y mantener su fazienda, sino también acceder al paraíso y salvar el alma.

Don Juan Manuel, a pesar de haber llevado una vida mundana e incluso, en ocasiones, violenta, era hombre de gran devoción. Mantuvo vínculos muy estrechos con los frailes de la orden de los dominicos, creada, junto con las otras órdenes mendicantes, poco más de un siglo antes, tras el IV Concilio de Letrán (1215). Fundó para ellos un monasterio en la localidad de Peñafiel (cerca de Valladolid), donde el autor tenía un castillo que fue su residencia favorita, regalo de su primo, padrino y tutor, el rey Sancho IV el Bravo. En el convento de los dominicos de Peñafiel quiso ser enterrado y allí depositó el volumen original de sus obras completas (perdido en un incendio del siglo XVIII). No caben dudas de que en el monasterio tuvo a su alcance algún que otro manual de predicación, o ejemplario, como indica el decimocuarto ejemplo del Libro del conde Lucanor, titulado «Del miraglo que fizo santo Domingo cuando predicó sobre el logrero». La Iglesia, a través de la predicación, fue uno de los principales canales de difusión de relatos breves en la Edad Media, amén de una adecuada moralización; la influencia del nuevo modelo homilético, basado en la inclusión de exempla en los sermones, es patente en don Juan Manuel. La obra manuelina une a esta tradición los relatos llegados de la Antigüedad (fábulas de Esopo) y de Oriente (prosa ejemplar), así como relatos heredados de un pasado histórico peninsular más o menos remoto (de Álvar Fãnez a Saladino).

La influencia del noble castellano en las letras será patente hasta el siglo XX, cuando Jorge Luis Borges retomará el exemplum XI « De lo que contesçió a un deán de Sanctiago con don Yllán, el grand maestro de Toledo», obra maestra de la cuentística medieval, para crear otra obra maestra de la narrativa breve de todos los tiempos, El brujo postergado.
Referências

ALVAR, Carlos; LUCÍA MEGÍAS, José Manuel. Diccionario Filológico de Literatura Medieval Española. Textos y transmisión. Madrid: Castalia, 2002. p. 718-724.

DON JUAN MANUEL. El conde Lucanor o libro de los enxiemplos del conde Lucanor et de Patronio. Ed. José Manuel Blecua, nota actualizadora de Fernando Gómez Redondo. Madrid: Castalia, 2000.

DON JUAN MANUEL. El conde Lucanor. Ed. Guillermo Serés con un estudio preliminar de Germán Orduna. Barcelona: Crítica, 1994.

GÓMEZ REDONDO, Fernando. Historia de la prosa medieval castellana. Madrid: Cátedra, 1998. v. I. p. 1148-1183.
Palavras-chave: Dom Juan Manuel; narrativa breve; provérbios; doutrina; dominicanos.
Palabras clave:don Juan Manuel; narrativa breve; proverbios; doctrina; dominicos.
 
Constance Carta

Université de Genève
 
 

Edições modernas

DON JUAN MANUEL. El conde Lucanor o libro de los enxiemplos del conde Lucanor et de Patronio. Ed. José Manuel Blecua, nota actualizadora de Fernando Gómez Redondo. Madrid: Castalia, 2000.

DON JUAN MANUEL. El conde Lucanor. Ed. Guillermo Serés con un estudio preliminar de Germán Orduna. Barcelona: Crítica, 1994.
 
 

Trecho traduzido e modernizado

Em nome de Deus: Amém

Entre muitas coisas estranhas e maravilhosas que nosso Senhor Deus fez, teve por bem fazer uma muito maravilhosa, isto é que, de todos os homens que existem no mundo, não há um que tenha a mesma cara que o outro, porque mesmo que todos os homens tenham as mesmas coisas nas caras, essas não são idênticas entre si. E colocou nas caras, que são tão pequenas, tão grande variedade; menor maravilha é que haja variedade nas vontades e nas intenções dos homens. E assim falarás que nenhum homem se assemelha de todo na vontade e na intenção com outro. E farei para ti alguns exemplos para que o entenda melhor.

Todos os que querem e desejam servir a Deus, querem a mesma coisa, mas não o servem todos da mesma maneira, porque uns lhe servem de uma maneira e outros de outra. Outrossim, os que servem aos senhores, todos o servem, mas não o servem da mesma maneira. E os que lavram e criam e trabalham e caçam e fazem todas as outras coisas, todos fazem-nas, mas não as entendem nem as fazem da mesma maneira. E assim, por este exemplo, e por outros que seriam muito longos para dizer, podes entender que apesar de que todos os homens sejam homens e todos tenham vontades e intenções, que assim como pouco se assemelham pelas caras, tampouco se assemelham nas intenções e nas vontades; mas todos se assemelham no tanto que fazem e querem e aprendem melhor aquelas coisas que lhes satisfazem mais que as outras [...]
 
Autor: Dom Juan Manuel.

Nome da obra: Libro del conde Lucanor.

Data: 1335.

Local: Espanha.

Imagens: Biblioteca Nacional de Espanha.
 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *