Arturo Jiménez Moreno
12 de setembro de 2019
Paulo Alexandre Cardoso Pereira
17 de setembro de 2019

Horto do Esposo

 


Verbete

ANÔNIMO. Horto do Esposo. Ordem de Cister. Mosteiro de Santa Maria (Alcobaça): 1493.
 
O Horto do Esposo é um texto de autor desconhecido, redigido na passagem do século XIV para o século XV, e integrável na tradição da prosa doutrinária portuguesa medieval. Não constitui, pois, stricto sensu, uma compilação de exempla, embora participe, de modo inequívoco dessa tradição literária, fortemente impulsionada pela reforma da pregação empreendida pelas Ordens Mendicantes. Como notou Bertil Maler, o primeiro editor do texto, o título da obra é revelador da intentio auctoris: “sabe-se que a palavra hortas e sinónimos empregava-se muito amiúde como título de compilações de diferentes classes (...). E Esposo indica claramente o cunho religioso e místico que o autor quis dar à obra” (Maler, 1964: 22, n. 1). Com efeito, esta opção intitulante denuncia tanto a omnipresente pulsão narrativa, como o explícito desígnio pastoral da obra.

A história externa do texto continua a circunscrever-se, quase exclusivamente, aos dados apurados por Mário Martins e pelo seu primeiro editor, Bertil Maler. O texto anónimo foi transmitido por dois códices alcobacenses, respetivamente com as cotas da Biblioteca Nacional de Lisboa Alc.198/CCLXXIII (primeira metade do século XV) e Alc.2I2/CCLXXIV (1481-c.1500). Um acrescento, muito posterior, ao índice do primeiro destes códices, assim como Diogo Barbosa Machado na sua Bibliotheca Lusitana, apontam Frei Hermenegildo de Tancos como presumível autor do tratado. Em inícios do século XIX, contudo, o monge cisterciense Frei Fortunato de S. Boaventura lança dúvidas sobre esta atribuição, argumentando ter sido o monge mero copista ou, quando muito, tradutor da obra. A tese da tradução mereceu, até ao estudo de Mário Martins, acolhimento indisputado. Baseando-se na interpretação das reflexões expendidas pelo autor no prólogo, bem como na seleção do título e nos processos de composição, será o estudioso jesuíta quem primeiro irá advogar a originalidade da obra, considerando argumento decisivo a circunstância, registada no prólogo, de o autor ter sido instado pela sua irmã a compô-la originalmente em linguagem.

Por seu turno, a dilucidação da identidade do monge anónimo, tido como seguramente ligado à abadia cisterciense de Alcobaça, não parece ter, até ao momento, encorajado outras conjeturas. Mário Martins, após formular a opinião de que o autor anónimo, contemporâneo de Fernão Lopes, “não envergonharia o célebre cronista, embora esteja longe do seu génio poderoso” (Martins, 1948: 175), destaca as afinidades estilísticas que a aproximam do Boosco Deleitoso, baseando-se nelas para sugerir a hipótese de se tratar, em ambos os casos, criação de um mesmo autor.

A datação do texto apoia-se em dados mais seguros e é ainda Mário Martins quem, na sequência de uma referência incluída no próprio texto, fixa os limites cronológicos da sua composição, situando-a definitivamente entre 1383 e 1417. O termo a quo foi deduzido a partir da alusão feita pelo autor, no capítulo XLIII do Livro IV, à agitação político-social sobreveniente à morte de D. Fernando, ocorrida nesse mesmo ano. O ano de 1417, também proposto por Mário Martins e genericamente aceite como limite ad quem de composição da obra, refere-se à data em que S. Bernardino de Siena iniciou, com assinalável sucesso popular, a pregação do Nome de Jesus. Ora, pouco depois da morte de D. Fernando, em 1383, e, portanto, em data anterior à do pregador franciscano, o autor do Horto integra já na obra um pequeno tratado em torno do nome de Jesus.

Embora rarefeita, a informação coligida sobre a circulação do texto permite intuir o seu considerável sucesso junto de um público misto, primeiro monástico e, mais tarde, senhorial. No que respeita ao primeiro, para além dois códices oriundos da abadia de Alcobaça, o Horto figura ainda no inventário dos bens do mosteiro de Bouro (1408). Mais recentemente, em 1998, foram descobertos, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, alguns fragmentos da obra procedentes do mosteiro de Santa Maria de Lorvão. O fragmento mais longo, correspondente aos capítulos LI e LII do Livro IV e descoberto por A. Askins, faz supor a existência de um terceiro manuscrito (1391-1450), filiado no ramo B da tradição, mas provavelmente contemporâneo de A. A difusão do Horto também em contexto laico é atestada quer pela comparência da obra no rol de livros da biblioteca de D. Duarte, quer pela menção a ela feita pelo seu sobrinho, o Condestável D. Pedro de Portugal, na sua Tragedia de la Insigne Reina Doña Isabel (1466). A presença da obra no círculo cortês poderá explicar-se pela disseminação de práticas de leitura laica e pela consequente proliferação de bibliotecas particulares, fenómenos que se acentuam gradualmente no decurso dos séculos XIV e XV.

O Horto do Esposo participa, portanto, da tradição literária constituída por tratados religiosos e obras de edificação, no âmbito da qual as artes rhetoricae prescreviam o uso da ilustração narrativa através do exemplum. Com efeito, os livros de espiritualidade não deixavam de glosar as mesmas advertências éticas e ecoar as preocupações pastorais que alimentavam a cultura da pregação. As modalidades do relato exemplar mais frequentemente interpoladas neste tipo de obras de orientação didática eram, naturalmente, as de feição mais pronunciadamente devota (exempla bíblicos e hagiográficos), embora não fossem de excluir contos profanos, fábulas, apólogos históricos ou mesmo faits divers quotidianos. Aliás, no prólogo do Horto, o autor anónimo chama a atenção para a coabitação, na sua obra, de fontes narrativas sacras e profanas (respetivamente associadas ao docere e do delectare), um convívio nem sempre isento, aliás, de atrito hermenêutico. Integradas em distintos graus e modalidades no tecido textual da obra, as inúmeras fontes citadas ou glosadas no Horto acusam a indeclinável ascendência clerical e monástica das obras que conformam a enciclopédia pessoal do seu autor. Assim, para além dos textos escriturísticos e patrísticos, o monge recorreu a obras de Orósio e Cassiodoro, Valério Máximo e Alcuíno, S. Bernardo e Jacobo de Voragine e, com toda a certeza, a várias das recolhas de exempla em voga, como as de Humberto de Romans e Arnoldo de Liège, ou a exemplários, como o Espéculo de los legos e o Libro de Enxemplos. O exemplum encontra-se, deste modo, representado, no Horto, na sua ampla diversidade tipológica, não sendo difícil de nele identificar as modalidades bíblica e hagiográfica, histórica e lendária, a par de fábulas, lendas ou contos morais.

Colocada ao serviço da pragmática cristã da cura animarum, esta matéria narrativa, aparentemente sincrética, surge subsumida a uma expressa função exemplar. O clima espiritual da obra, claramente devedor do movimento monacal, é dominado pelo estoicismo cristão de sinal cisterciense. O marcado pessimismo existencial reverberado pelo monge anónimo, de matizes não raras vezes apocalípticos, exorta enfaticamente o crente ao contemptus mundi e ao contemptus sui, lembrando-o da fugacidade do trânsito terreno e alertando-o para a inanidade da sua existência.

O Horto do Esposo permite, assim, acompanhar a migração do exemplum do contexto parenético para o discurso de edificação, tornando possível a reconstituição do processo por meio do qual o género transita da esfera da oratória (e da oratura) para o território da literatura.
Palavras-chave: corte portuguesa; prosa doutrinária; pastoral; Alcobaça; exemplum.
Paulo Alexandre Pereira

Universidade de Aveiro
 
 

Edições modernas

GODINHO, Helder; FREIRE NUNES, Irene (ed.). Horto Esposo. Lisboa: Colibri, 2008.
 
 

Trecho traduzido e modernizado

Aqui começa o livro que se chama Horto do Esposo, o qual compus pela honra e louvor de nosso Senhor Jesus Cristo, flor muito preciosa e fruto muito doce de todas as almas devotas e da beata virgem das virgens, Maria, rosa singular e elevada da celestial deleitação e de toda a corte da cidade de Jerusalém que está na glória do Paraíso.

Eu muito pecador e indigno de todo bem, escrevi este livro para proveito e espiritual deleitação de todos os simples fiéis de Jesus Cristo e especialmente para prazer e consolação da alma de ti minha irmã e companheira da casa divinal e humanal, que me rogaste muitas vezes que te fizesse em linguagem um livro dos feitos antigos e das façanhas dos nobres barões e das coisas maravilhosas do mundo e das propriedades dos animais, para ler e tomar conhecimento e te distrair nos dias que te convêm cessar dos trabalhos corporais.

(Prólogo - capítulo I)
 
Autor: Anônimo / Santo Agostinho.

Nome da obra: Horto do Esposo.

Data: 1493.

Local: Ordem de Cister. Mosteiro de Santa Maria (Alcobaça).

Imagens: Biblioteca Nacional de Portugal.

 

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