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Corte Imperial

 


Verbete

ANÔNIMO. Livro da Corte Imperial. Portugal: Século XIV ou XV.
 
A Corte Imperial é uma obra de autor desconhecido, provavelmente clérigo ou monge (MARTINS, 1980, p. 209), transmitida por um único manuscrito apógrafo, hoje conservado na Biblioteca Pública Municipal do Porto, datável de meados do século XV. Não dissentindo da proposta de Cruz Pontes, o autor que incontestavelmente mais persistente atenção crítica tem dispensado ao texto, o seu mais recente editor, Adelino de Almeida Calado, baseando-se em dados de natureza histórico-linguística, faz remontar a sua composição ao século anterior (CALADO, 2000, p. XI-XIII). Embora o testemunho único de que dispomos inclua a menção de ter pertencido a Afonso Vasco de Calvos, morador na cidade do Porto, ainda vivo em 1454, sabe-se que um exemplar constava do rol dos livros de D. Duarte e que, nos primeiros anos do século seguinte, um outro, hoje desaparecido, terá sido doado, por disposição testamentária da infanta D. Beatriz, aos monges franciscanos do Convento de Santo António em Beja.

Trata-se de um texto integrável na escassa tradição da literatura controversista medieval em língua portuguesa e terá sido a originalidade deste testemunho das relações inter-religiosas mantidas em solo peninsular, a par da invulgar erudição evidenciada pelo autor no domínio das fontes arabo-islâmicas, que, mais recentemente, levaram Adel Sidarius a formular a hipótese de tratar-se a obra de tradução portuguesa de um original catalão, provavelmente recolha de textos ou thesaurus de testimonia com finalidades apostólicas de missionação cristã, organizada nos meios dominicanos catalães próximos de Raimundo Martí (SIDARIUS, 1994, p. 147-48).

Obra original ou tradução, o certo é que a Corte Imperial parece constituir “o primeiro importante texto filosófico e teológico redigido em português” (PONTES, 1995, p. 1308). A questão da justa medida da originalidade do texto é explicitamente abordada pelo autor no prólogo, que, após ter reivindicado a tradução “das autoridades da Santa Scriptura com declarações e exposiçoões de doutores e per razões evidentes e neçesarias e dizeres de baroões sabedores declaradas de latim em linguagem purtugues”, adverte, num gesto tópico de humildade corrente na prosa de feição doutrinária, que “eu, pecador, confiando começo este livro, nom como autor e achador das cousas em elle contheudas, mais como sinprez ajuntador dellas em hũu vellume” (CALADO, 2000, p. 11).

Ora, o inventário sistemático das fontes da obra veio, com efeito, confirmar a relevância das tarefas de tradução e compilação na sua composição. A colação das principais fontes aproveitadas pelo autor-compilador – Nicolau de Lyra, Raimundo Lúlio, Isidoro de Sevilha, o De Vetula pseudo-ovidiano, os textos corânicos, entre outras – com o texto da Corte Imperial permitiu a Cruz Pontes concluir que, nessa adição crítica de discursos, “o autor […] não se prendeu servilmente aos textos que aproveitou, não só porque os seleccionou e ordenou a seu modo, como porque também alterou, ora comentando e alargando, ora resumindo e sintetizando, as exposições doutrinais de que se serviu” (PONTES, 1957, p. 185). O programa de escrita consignado pelo autor-compilador no prólogo, uma vez esclarecido o alcance figurativo do título e a prevalência do regime alegórico patente na reconstituição teatral das cortes celestiais, insiste na pluralidade abonatória das fontes:

“[…] he composto este livro, que he chamado Corte Inperial, e tal nome lhe he posto porque, asy como na corte do rey e do emperador ou doutro alto príncipe sooem a seer trautados os grandes negoçios e os altos feitos e as árduas questões determinadas, asy este livro trauta de grandes cousas e de muy altas questoões, asy como da essência de Deus e da Trindade e da encarnaçom divinal e doutras materias proveitosas pera conhecer e entender o Senhor Deus segundo o poder da franqueza humanal, provando todo per autoridades da Santa Scriptura com declarações e exposiçoões de doutores e per razões evidentes e neçesarias e dizeres de baroões sabedores […]”. (CALADO, 2000, p. 9).

Se, por um lado, as apreciações críticas da Corte Imperial têm salientado a sua débil originalidade teológico-doutrinária na tematização da rivalidade dos monoteísmos, nem por isso deixam de reabilitar o texto, reconhecendo a originalidade da sua moldura dramática, por meio da qual se procura amenizar a aridez apologética do texto, e que parece ser inteiramente atribuível ao engenho do autor. Em função dela, António José Saraiva sugeriu que “a Corte Imperial [se] apresenta […] como um compendium dirigido a um público amplo, fora do grémio clerical, como o mostra o facto de estar escrito em língua portuguesa e o de recorrer a todos os processos literários capazes de aliciar e prender o leitor” (SARAIVA, 1988, p. 143). Cruz Pontes vai mais longe, adiantando que a obra “poderia […] destinar-se a preparar os missionários que embarcavam com os marinheiros nas viagens iniciadas em Quatrocentos” e que, à semelhança do que se sabe ter ocorrido com exemplares da tradução portuguesa da Vita Christi, “talvez algum códice do Livro da Corte Enperial tivesse seguido nos navios” (PONTES, 1995, p. 1310).

A proclamada originalidade construtiva da Corte Imperial parece, portanto, inseparável de uma retórica instrumental da conversão que explora as possibilidades da encenação alegórica como expediente didático. A litigação entre confissões religiosas teatralizada na obra coloca em cena personagens de diferente estatuto, porquanto a disputa se trava entre a alegoria personificante da Igreja Militante, corporizada na sages rainha católica, e diferentes tipos coletivos, emblemáticos do paganismo (filósofos) e dos monoteísmos judaico (rabinos) e islâmico (alfaquis). A Corte Imperial reedita, assim, o catálogo de topoi constantes da literatura de polémica religiosa adversus judaeus, adversus gentiles e adversus mauros, por meio da ampliação escriturística do Credo e da fundamentação dos dogmas católicos: a estrutura trina e una da essência de Deus, a Sua revelação à humanidade na figura de Cristo encarnado, a Paixão, a Ressurreição e o Juízo Final, a Eucaristia. Instigada por um infatigável furor demonstrandi, é à Igreja Militante que compete dar voz e corpo a esse projeto argumentativo.

REFERÊNCIAS

CALADO, Adelino de Almeida (ed.). Corte Enperial. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2000.

MARTINS, Mário. Corte Imperial. In: Alegorias, Símbolos e Exemplos Morais da Literatura Medieval Portuguesa. Lisboa: Edições Brotéria, 1980.

PONTES, J. M. da Cruz. Estudo para uma edição crítica da Corte Enperial. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1957.

PONTES, J. M. da Cruz. Corte Enperial (Livro da). In: Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa. Lisboa: Verbo, 1995. v. 1. p. 1307-1310.

SARAIVA, António José. O crepúsculo da Idade Média em Portugal. Lisboa: Gradiva, 1988.

SIDARIUS, Adel. Le Livro da Corte Enperial entre l’apologétique lulienne et l’expansion catalane au XIVe siècle. In: SANTIAGO-OTERO, Horacio (ed.). Diálogo Filosófico-Religioso entre Cristianismo, Judaísmo e Islamismo durante la Edad Media en la Península Ibérica. Turnhout: Brepols, 1994. p. 131-172.
 
Palavras-chave: Corte portuguesa; prosa doutrinária; exemplum; pastoral.
Paulo Alexandre Pereira

Universidade de Aveiro
 
 

Edições modernas

CALADO, Adelino de Almeida (ed.). Corte Enperial. Aveiro: Universidade de Aveiro, 2000.
 
 

Trecho traduzido e modernizado

Prólogo do Livro da Corte Imperial da Colecção de Manuscriptos da Real Bibliotheca Publica Municipal do Porto – 1910. Fólio 4 (BPMP_MS-803_04).

Em nome de deus noso senhor Ihezu christo sem o qual toda cousa he uaidade. A fim Principal por que ho homem he criado he esta pera se nembrar do senhor deus e pera o amar e pera o entender. E como seia uerdade que quanto ho homem mais conheçe deus tanto se pode mais nembrar delle e tanto o pode mais amar e seruir e honrar. Porem pera o senhor deus ser mais e melhor conhoçido e entendido he composto este liuro que he chamado corte imperial e tal nome lhe he posto porque asy como na corte do rrey e do emperador ou de outro alto prinçipe sooen aa seer trautados os grandes negoçios e os altos feitos e as arduas questõoes determinadas. Asy este liuro trauta de grandes cousas e de muy altas questõoes asy como da essençia de deus e da trindade e da encarnaçom diuinal e de outras materias proueitosas pera conhoçer e entender o senhor deus segundo o poder da fraqueza humanal prouando todo per autoridades da santa scriptura com declaraçõoes e exposiçõoes de doutores e per rasõoes euydentes e neçessarias e diseres de barõoes sabedores declaradus de latim em linguagem purtugues com protestaçom de correiçom e enmenda da santa egreja e doutra qualquer pessoa que o melhor entender.

Em nome de Deus nosso senhor Jesus cristo sem o qual tudo é vaidade. A finalidade principal para que o homem foi criado é para se lembrar do senhor Deus e para amá-lo e entendê-lo. E como é verdade que quanto mais o homem conhece Deus mais se lembra Dele e assim pode amá-lo, senti-lo e honrá-lo ainda mais, compus este livro para que o senhor Deus seja mais e melhor conhecido e entendido, o qual nomeei Corte Imperial, e escolhi este nome porque assim como na corte do rei e do imperador ou de outro alto príncipe devem ser tratados os grandes negócios e os grandes feitos e determinadas questões árduas. Portanto este libro trata de grandes coisas e de questões muito altas, assim como da essência de Deus e da trindade e da encarnação divinal e de otras matérias proveitosas para conhecer e entender o senhor Deus segundo o poder da fraqueza humanal, provando tudo pelas autoridades da Santa Escritura com declarações e exposições de doutores e por razões evidentes e necessárias e dizeres de barões conhecedores, traduzidas do latim para linguagem portuguesa com manifestação de correção e emenda da santa Igreja e de qualquer outra pessoa que melhor entender.
 
Autor: Anônimo.

Nome da obra: Livro da Corte Imperial.

Data: século XIV ou XV.

Local: mosteiro inidentificável, Portugal.

Imagens: Biblioteca Pública Municipal do Porto - Ms 803.
 

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