Vida de Santa Eufrosina
18 de setembro de 2019
Veronica Orazi
19 de setembro de 2019

Arcipreste de Talavera o Corbacho

 


Verbete

ALFONSO MARTÍNEZ DE TOLEDO. Arcipreste de Talavera o Corbacho. Toledo: 1438.
 
En la Baja Edad Media la visión de la mujer adquiere una connotación peculiar: por un lado, sigue vigente un ideal positivo, de origen religioso pero también laico (reflejado por la literatura mariana y cortesana), al que se añade ahora la expresión de la negatividad de la figura femenina, que sustentaba los tratados religiosos y las obras literarias (los Padres de la Iglesia, los fabliaux, los cuentos orientales). Al extinguirse progresivamente la dimensión ideológico-cultural en que se basaba el universo cortesano, el binomio bona mulier / mala mulier se inclina hacia el componente negativo más despiadado, en un horizonte en que las categorías ideológicas y expresivas han cambiado y acaba imponiéndose una visión más laica, urbana, proto-burgués, en la que caben hasta los aspectos más bajos y descalificadores.

Esta tendencia no refleja tan sólo la perspectiva personal del autor, sino que es expresión de una mentalidad que aprovecha los rasgos más eficaces para conseguir sus objetivos. Se trata, por lo tanto, de un fenómeno relacionado con los códigos culturales y el imaginario colectivo, basado en categorías ideológicas bien arraigadas en el s. XV, fundamentadas en antecedentes literarios y apologéticos. La situación, entonces, se vuelve más clara: la crisis ideológica del mundo cortesano en disolución, la intensificación del elemento negativo en el binomio mala mulier / bona mulier, el influjo de la tradición apologética y literaria, se vuelven auctoritates ineludibles, aprovechadas para finalidades didascálicas y religiosas.

En el ámbito hispánico, es precisamente el Arcipreste de Talavera de Alfonso Martínez de Toledo la obra que sintetiza la progresiva evolución de temas y tópicos de este tipo, para reafirmar la corrupción de la mujer a través del mecanismo de rebajamiento y el exemplum e contrario.

El autor, animado por su voluntad de reprobación del amor mundano, ofrece en el texto una imagen de la mujer que sintetiza los siete vicios capitales: de hecho, la misoginia deformante de la obra procede de la idea de reprobatio amoris típicamente medieval, plasmada remedando la estructura del exemplum e contrario para remitir a la tradición apologética y didascálica pero también a la realidad.

La perspectiva del texto expresa, pues, un didacticismo que remite a la predicación y que resulta confirmado por la historia, derivado de la condena de la mujer considerada un aliciente nefasto: es ella que inclina a dejarse tentar por la carne y a abandonarse al loco amor del que vienen todos los males.

La obra consta de cuatro libros; el segundo desarrolla una elaborada censura de la figura femenina, según las pautas de la narración ejemplar circunscrita y reconcentrada en el perímetro de su breve extensión. El rebajamiento de la mujer se realiza a través de una específica estrategia compositiva: el clímax negativo se alcanza por acumulación y desemboca en la condena, suscitada por superposición enfática de escenas y tipos que condensan la corrupción de la mujer. La narración, sin embargo, sobrepasa la esencialidad de los exempla tradicionales y concreta un aparato ideológico y expresivo muy potente, síntesis de la denuncia de los vicios femeninos, inspirado en la condena del cuerpo y del amor carnal y sustentado por el didacticismo y los intentos moralizadores.

Entonces, como en una galería de espejos deformantes, desfilan ante los ojos del lector ‘doncellas’, mujeres, y ancianas que plasman una meta-figura nefasta, síntesis de toda posible perversión. Esta amplificación progresiva e imparable ofrece la prueba irrefutable del abismo de corrupción representado por la mujer.

Alfonso Martínez de Toledo presenta varios tipos, cuya descripción y condena corresponde a un amonestamiento moral: la avariciosa, empujada por la avidez, por la sed de bienes y poder; la muger mormorante y detractora, expresión de la falsedad y de la envidia; la lujuriosa, que ama a diestro e a siniestro, desenfrenadamente; la mujer altiva y la iracunda; la mujer llena de vanagloria ventosa; y hasta la muger embriaga, presa de los excesos peores. La inevitable conclusión es que amar a Dios es sabieza e lo ál locura. El autor extremiza la descripción del vicio hasta paroxismo, aprovechando la amplificación y la distorsión grotesca para su fin ejemplar; realiza todo esto alejándose progresivamente de las auctoritates y zambulliéndose en la realidad, una realidad enfatizada, en que destaca una serie de anti-iconos, encarnación de todo vicio, de figuras inspiradas por el didacticismo religioso y por la reprobatio amoris medievales.
Na Baixa Idade Média a visão da mulher adquire uma conotação peculiar: por um lado, segue vigente um ideal positivo, de origem religiosa mas também laica (refletida pela literatura mariana e cortesã), ao que se incorpora agora a expressão da negatividade da figura feminina, que sustentava os tratados religiosos e as obras literárias (os Padres da Igreja, os fabliaux, os contos orientais). Ao extinguir-se progressivamente a dimensão ideológica-cultural em que se baseava o universo cortesão, o binômio bona mulier / mala mulier se inclina para o componente negativo mais implacável, em um horizonte em que as categorias ideológicas e expressivas mudaram e acabam impondo uma visão mais laica, urbana, proto-burguesa, na qual cabem até os aspectos mais baixos e desqualificantes.

Esta tendência não reflete apenas somente a perspectiva pessoal do autor, mas a expressão de uma mentalidade que aproveita os traços mais eficazes para conseguir seus objetivos. Trata-se, portanto, de um fenômeno relacionado aos códigos culturais e ao imaginário coletivo, baseado em categorias ideológicas bem enraizadas no século XV, fundamentadas em antecedentes literários e apologéticos. A situação, então, se torna mais clara: a crise ideológica do mundo cortesão em dissolução, a intensificação do elemento negativo no binômio mala mulier / bona mulier, a influência da tradição apologética e literária, tornam-se auctoritates inevitáveis, aproveitadas para finalidades didáticas e religiosas.

No âmbito hispânico, é precisamente o Arcipreste de Talavera de Afonso Martínez de Toledo a obra que sintetiza a progressiva evolução de temas e tópicos deste tipo, para reafirmar a corrupção da mulher através do mecanismo de rebaixamento e do exemplum e contrario.

O autor, animado por sua vontade de “reprovação do amor mundano”, oferece no texto uma imagem da mulher que sintetiza os sete vícios capitais: de fato, a misoginia deformante da obra procede da ideia de reprobatio amoris tipicamente medieval, moldada pela imitação da estrutura do exemplum e contrario para remeter a tradição apologética e didática mas também a realidade.

A perspectiva do texto expressa, pois, um didatismo que remete a predicação e que resulta confirmado pela história, derivado da condenação da mulher considerada um incentivo nefasto: é ela quem inclina-se a ser tentada pela carne e a abandonar-se ao “amor louco” do qual procedem “todos os males”.

A obra é composta por quatro livros, o segundo desenvolve uma censura elaborada da figura feminina, em virtude das pautas da narrativa exemplar circunscrita e reconcentrada no perímetro de sua breve extensão. O rebaixamento da mulher se realiza através de uma estratégia de composição específica: o clímax negativo é alcançado pela acumulação e termina em condenação, suscitado pela superposição enfática de cenas e modelos que condensam a corrupção da mulher. A narrativa, no entanto, supera a essencialidade dos exempla tradicionais e concretiza um aparato ideológico e expressivo muito poderoso, síntese da denúncia dos vícios femininos, inspirado na condenação do corpo e do amor carnal e sustentado pelo didatismo e intenções moralizantes.

Então, como em uma galeria de espelhos deformanes, desfilam diante dos olhos do leitor “donzelas”, mulheres e anciãs que moldam uma meta-figura nefasta, síntese de toda perversão possível. Esta amplificação progressiva e imparável oferece a prova irrefutável do abismo de corrupção representado pela mulher.

Afonso Martínez de Toledo apresenta vários tipos, cuja descrição e condenação corresponde a uma admoestação moral: “a avarenta”, impulsionada pela avidez, pela sede de bens e poder; “a mulher lamuriosa e detratora”, expressão da falsidade e da inveja; a luxuriosa, que ama a torto e a direito, desenfreadamente; a mulher orgulhosa e enraivecida; a mulher cheia de “vaidade ilusória”; e até a “mulher embriagada”, presa dos piores excessos. A conclusão inevitável é que “amar a Deus é sabedoria e ao outro loucura”. O autor extrema a descrição do vício até o paroxismo, aproveitando a amplificação e a distorção grotesca para sua finalidade exemplar; realiza tudo isso afastando-se progressivamente das auctoritates e mergulhando na realidade, uma realidade enfatizada, na qual se destaca uma série de anti-ícones, encarnação de todo vício, de figuras inspiradas pelo didatismo religioso e pelo reprobatio amoris medievais.
Palabras Clave: Amor divino; amor mundano; mujeres; ejemplos; vicios capitales; misoginia.
Palavras-chave: Amor divino; amor mundano; mulheres; exemplos; vícios capitais; misoginia.
Veronica Orazi

Università degli Studi di Torino
 
 

Edições modernas

ALFONSO MARTÍNEZ DE TOLEDO. Arcipreste de Talavera o Corbacho. In: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes.
 
 

Trecho traduzido e modernizado

Em nome de Deus e da santa trindade, pai, filho e espírito santo, três pessoas em um só Deus verdadeiro, feitor, ordenador e compositor de todas as coisas sem o qual nenhuma coisa pode ser bem feita, bendita, iniciada, mediada nem finalizada, tendo como mediadora, intercessora e advogada sem defeito, a virgem Santa Maria. Portanto, eu, Martín Alfonso de Toledo, bacharel, arcipreste de Talavera, capelão de nosso senhor o rei Don João de Castela – que Deus mantenha por longos e bons tempos – ainda que indigno, propus fazer um breve compêndio em romance para trazer alguma informação para quem se apetece de ler, para aqueles que retêm o que lêem, e aqueles que colocam em prática o que retiveram. Especialmente para aqueles que não trilharam o mundo, nem beberam de suas bebidas amargas, nem experimentaram de sua comida amarga, porque para aqueles que sabem e já viram, sentiram e ouviram não escrevo, pois o seu saber basta-lhes para se defender das coisas contrárias. E está dividido em quatro partes: na primeira falarei da reprovação do amor louco. E no segundo direi sobre algumas condições das mulheres viciosas. E na terceira prosseguirei com as compleições dos homens (quais são ou quais virtude têm para amar ou serem amados). E na quarta concluirei reprovando a maneira comum de falar das sinas, venturas, fortunas, signos e planetas, reprovada pela santa madre igreja e por aqueles a quem Deus deu sentido, senso e juízo natural e entendimento racional.
 
Autor: Alfonso Martínez de Toledo.

Nome da obra: Arcipreste de Talavera o Corbacho.

Data: 1438.

Local: Toledo.

Imagens: Biblioteca Nacional de España.

 

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