Obras pastorais e Doutrinárias

Vida do Cativo Monge Confesso

  • César Nardelli Cambraia - Universidade Federal de Minas Gerais

A Vida do Cativo Monge Confesso é uma adaptação medieval para a língua portuguesa de um texto de São Jerônimo.

Eusébio Sofrônio Jerônimo nasceu em 347 d.C. em Estridão, na Dalmácia. Mudou-se para Roma por volta do ano de 360, onde foi educado pelo gramático Élio Donato. Depois de ter permanecido em outras localidades, partiu, por volta de 373, para o Oriente, estabelecendo-se no deserto de Cálcis, a sudoeste de Antioquia, onde se dedicou à vida ascética. Entre 382 e 385, voltou a estar em Roma, onde foi incumbido pelo Papa Dâmaso de fazer uma revisão da Bíblia Latina, tarefa concluída por volta de 391 e 403, dando origem assim à chamada Vulgata. Em 386, havia se instalado em uma comunidade em Belém, vindo a falecer aí no ano de 420. Além da Vulgata, produziu um grande volume de obras, sendo algumas poucas de caráter hagiográfico. A narrativa relativa ao monge cativo teria sido redigida no ano de 391.

No Fundo de Alcobaça, existe um testemunho com a versão latina dessa obra hagiográfica: trata-se do cód. alc. 367, Biblioteca Nacional, Lisboa, séc. XII, ff. 39r-42r, no qual a obra se apresenta com o título de Jheronimus De Malcho Captivo Monacho. Na Patrologia Latina de Migne (t. 23, coll. 55-62), o texto se acha intitulado como Vita Malchi Monachi Capitivi.

A adaptação medieval portuguesa foi preservada em apenas um testemunho: cód. alc. 181, Biblioteca Nacional, Lisboa, séc. XV, ff. 157v-161v. No f. 152v, lê-se “Stevam Annes o fez Era iiijc liiijo anno”, ou seja, Estevão Annes o fez no ano 1454 [da Era Hispânica] (1416 da Era Cristã). Essa adaptação não parece derivar da versão do cód. alc. 367, questão que Roseira (Boletim de Filologia, t. I, 1932) aventou inicialmente e Cambraia (Estudos Portugueses e Africanos, v. 40, 2002) reiterou tendo em conta semelhanças entre o texto português e a versão latina da Patrologia por oposição à versão latina do cód. alc. 367.  O texto medieval português constitui-se como uma adaptação, já que há um alto grau de recomposição da obra, além de supressão de muitas passagens.

A obra é uma narrativa da história de Malcas (lat. Malchus), homem de família abastada, nascido em Atenas, cujos pais exigiram que tomasse esposa, mas ele se recusou, pois queria se tornar monge. Fugiu de casa e foi viver sob regra monástica no deserto de Cálcis. Retornando à sua cidade natal, encontrou a mãe já viúva e decidiu doar aos pobres a herança dele. Convidado a viver em uma abadia, recusou-se por querer levar vida solitária. Retornando ao deserto, tornou-se cativo de ladrões. Seu senhor exigiu que tomasse uma serva sua como esposa, ameaçando-o de morte, se não o fizesse. Por isso, simulou tomá-la por esposa, mantendo-se ambos, no entanto, em castidade. Decidido a deixar o cativeiro, fugiu com sua companheira. 

A adaptação portuguesa é interrompida bem antes do final do texto latino (termina no meio do antepenúltimo capítulo), ficando fora dela o episódio em que o casal se esconde em uma caverna para fugir de dois subordinados de seu antigo senhor. Trata-se, portanto, de uma narrativa hagiográfica com a função de inspirar fiéis através da apresentação da vida de personagens cristãos que mantiveram sua fé independentemente de obstáculos.

César Nardelli Cambraia
Universidade Federal de Minas Gerais
Palavras-chave:

Edições Modernas

CAMBRAIA, C. N. Vida do cativo monge confesso»: edição semidiplomática das versões alcobacenses portuguesa (cód. ALC 181) e latina (cód. ALC 367). Estudos Portugueses e Africanos, Campinas, v. 40, 2002, p. 63-83.

NUNES, J. J. Florilégio da literatura portuguesa arcaica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1932. p. 70-76.

ROSEIRA, A. Vida do cativo monge confesso. Boletim de Filologia, Lisboa, t. I, 1932, p. 40-52 e 125-162

Trecho traduzido e modernizado

Aqui começa a vida do cativo monge confesso


São Jerônimo nos conta e diz que aquele que ouve bem as Escrituras deve crer bem nelas e seguir as boas obras. E, por isso, ele vos conta uma história de que falamos como exemplo. Ele diz que estava em uma vila que era perto de Antioquia, a trinta milhas. Aquela vila tinha o nome de Maronias e não era muito grande. Ali chegou junto a ele um homem velho que era muito respeitado por sua idade avançada e pareceu-lhe que estava muito próximo da morte. Aquele velho tinha o nome de Malcas e parecia realmente que era natural dali por descendência uma mulher velha e de muita idade que era par dele. Aquele homem muito velho e aquela mulher muito velha mantinham-se dessa maneira: iam à igreja frequentemente, permaneciam nela longamente, ouviam ali todos seus ofícios, faziam serviço a nosso Senhor e mantinham-se muito bem assim. Levavam assim aqueles velhos sua vida e tinham sua grande alegria. E diz São Jerônimo: “Quando eu vi que viviam assim, perguntei aos que moravam ali como se tinham unido: se por casamento, se por amor, se pela vontade de Deus, a quem agradou de viverem em vida tão santa. E todos me disseram que eram pessoas muito santas e faziam muito serviço a nosso Senhor. E contarão me deles” — disse ele — “não sei quantas maravilhas. E então deixei-os, fui-me ao homem velho, falei com ele e perguntei-lhe sobre a sua vida. E ele me respondeu desta maneira: ‘Eu nasci em Atenas, e ali tive pai e mãe, e nunca tiveram outro filho, senão eu. Por isto, quiseram me fazer herdeiro de quanto tinham em bens, em terras e em posses e quiseram me dar uma esposa, mas eu não a quis. Antes, lhes respondi quando me disseram isso e disse que, na verdade, queria ser monge para servir a nosso Senhor ao invés de tomar esposa. E, quando meu pai ouviu isto, causou-lhe muito pesar e começou a tratar-me mal e o mesmo fez minha mãe. E começaram a prometer-me muitas coisas, para que tomasse esposa, mas eu nunca quis fazer nada para ter esposa. Antes, deixei meu pai e minha mãe e fugi para outra terra, para ser monge. E não pude ir para o Oriente nem para a terra do Egito, porque havia ali pessoas más e não me deixariam passar, e por isto fiquei aqui no Ocidente e não levava nada do mundo, exceto um pouco de pão. Andei tanto para o norte que acheguei junto de Cálcis: este é um lugar muito deserto e muito estranho. Ali encontrei homens santos que viviam segundo regra de monges e fiquei com eles; e pelo trabalho de minhas mãos buscava o por que vivia. Ali fiz jejuns e orações e ali castigava a vontade da minha carne e a submergia por abstinência.’”.

Autor da obra: São Jerônimo.

Título da obra: Vida do Cativo Monge Confesso.

Data da adaptação: Antes de 1416.

Imagem: Cód. alc. 181, Biblioteca Nacional, Lisboa, séc. XV, f. 157v (Disponível em: http://purl.pt/23735)

post-image

Usamos cookies para personalizar conteúdos e melhorar a sua experiência. Ao navegar neste site, você concorda com a nossa Política de Privacidade.

Concordo