Obras pastorais e Doutrinárias

Vida de Santa Eufrosina

  • Ana Maria e Silva Machado - Universidade de Coimbra

Tradução de uma hagiografia originariamente escrita em grego, no século V, com um acrescento significativo antes do século X, altura em que foi traduzida para latim, passando a ser conhecida no Ocidente.¹ Em Portugal, a versão latina conserva-se em dois manuscritos: o do século XII, pertença inicial do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Vita S. Euphrosinae virginis, cód. LXXIII/348, fs. 172v-181, hoje na Biblioteca Pública e Municipal do Porto (BPMP), é uma das mais antigas recolhas hagiográficas conservadas; o outro, já do século XIV, pertenceu à Livraria alcobacense e está hoje na Biblioteca Nacional (BNL): Vita Sanctae Euphrosynae, cód. LXXVII/1, fs. 153-161. A tradução portuguesa, ditada, como outras, pela importância crescente da língua portuguesa e integrada num programa prático de formação espiritual,² consta do cód. alc. 462³ (olim BNL ALC CCLXVI; ANTT Livr. 2274), com o título tardio "Collecção Mystica de Fr. Hylario da Lourinhãa, Monge Cisterciense de Alcobaça", fs. 42v-50v; é paleograficamente datável do século XV, foi copiada por Farciso do Monte, conforme consta do f. 50v e está junto das mais conhecidas ficções hagiográficas medievais.

A intriga, próxima da Vida de Santa Pelágia, de que parece ser uma réplica, é protagonizada por Eufrosina de Alexandria, que nasce tardiamente no seio de um casal abastado e de grande devoção. Prometida em casamento, é confrontada com a sua vocação espiritual, incrementada pela doutrinação dos monges do mosteiro de Teodósio, e opta pela vida religiosa. Aproveitando a ausência do pai, Panúncio, oculta a sua identidade feminina e apresenta-se naquele mosteiro com o nome de Esmarado. Desconhecendo o paradeiro e inconsolável com o desgosto, Panúncio procura refrigério junto do abade e este lhe aconselha a própria filha, que o doutrina e tranquiliza, sem que ele a reconheça, pois Eufrosina, mortificada, já não pertence ao mundo terreno. De acordo com o desfecho tradicional, depois de 38 anos sem levantar suspeitas, Esmarado adoece e, ao receber a visita do pai, pede-lhe que ali permaneça três dias. Perante a morte iminente, revela-lhe a sua verdadeira identidade. Após o seu falecimento, o pranto do pai quebra o sigilo e a notícia divulga-se no mosteiro para edificação de todos os monges.

O tema da vida monástica que domina a Vida conjuga-se com o do contemptus mundi, ambos se desenvolvendo mediante o modelo mestre-discípulo, um esquema particularmente adequado à dimensão pragmática da Vida. O didatismo dos longos discursos de teor doutrinal evidencia-se na progressiva aprendizagem que Eufrosina colhe das falas do monge que a edifica, mas também nos conselhos que ela própria dá ao pai, reiterando e difundindo a lição antes recebida, e, num plano mais alargado, na edificação que o exemplo da monja proporciona tanto no espaço conventual como no dos recetores da obra.

Embora o motivo do disfarce com mudança de sexo seja comum na ficção hagiográfica, ele é aqui mais complexo, porque o pio engano visa simultaneamente a comunidade religiosa e a familiar. Tal como nas Vidas das Santas Pelágia de Antioquia ou de Teodora de Alexandria, este motivo permite que as protagonistas cumpram a expiação ou, neste caso, a aspiração de santidade. Por outro lado, a ocultação da identidade feminina e a aparente experiência masculina a que se submetem constitui uma espécie de penitência a que a sua condição de mulher precisa de se submeter para alcançar o reconhecimento da comunidade monástica e do mundo. De outra forma, apenas lhe restaria a exclusão. 

No âmbito da movência endógena à poética medieval, ao monacho parthenia acrescentam-se aqui outros topoi como a esterilidade da mãe, o nascimento como recompensa da devoção dos pais, a recusa do casamento, a sabedoria precoce, a formosura como fonte de tentação, deste modo alargando a teia intertextual em que se move a ficção hagiográfica.

¹  CORREIA, Ângela. Vida de S. Aleixo. In G. Lanciani e G. Tavani (dirs.), Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Lisboa: Caminho, 1993, pp. 663-664; id. “Sobre a funcionalidade da narrativa hagiográfica”. In NASCIMENTO, A. A. (dir.), Actas do IV Congresso da Associação Hispânica de Literatura Medieval.  Lisboa: Edições Cosmos, 1993, vol. 2, pp. 121-124.
²  NASCIMENTO, Aires Augusto. A experiência do livro no primitivo meio alcobacense. In Actas dos Encontros de Alcobaça e Simpósio de Lisboa do IX Centenário do Nasciemnto de S. Bernardo. Braga: Universidade Católica – Câmara Municipal de Alcobaça, 1991,  pp. 122-146. SOBRAL, Cristina. Notas para uma história da hagiografia em português: os séculos XIII e XIV. In Cadernos de Literatura Medieval. CLP. Hagiografia. Coimbra: Centro de Literatura Portuguesa, 2015.
³  CCLXVI/ANTT, ms. da Livrª nº 2274.

⁴ http://w3.restena.lu/cul/VSE/VSE/001VSE.html. Acesso em 7 de setembro de 2019.
Ana Maria e Silva Machado
Universidade de Coimbra

Edições Modernas

COON, Linda. Sacred Fictions: Holy Women and Hagiography in Late Antiquity, Philadelphia – Pennsylvania, University of Pennsylvania Press, 1997.

JÚDICE, Nuno. O Espaço do Conto no Texto Medieval, Lisboa, Editora Vega, 1991.

Machado, Ana M. “Memory, Identity and Women's Representation in the Portuguese Reception of Vitae Patrum: Winning a Name”. In: M. Cotter-Lynch, and B. Herzog, Reading, Memory and Identity in the Texts of Medieval European Holy Women. New York, Palgrave Macmillan, 2012, pp. 150-152.

Sobral, Cristina, “O modelo discursivo hagiográfico” In: Modelo. Actas do V Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Porto, Faculdade de Letras, 1995, pp. 97-107.

Vida de Eufrosina, edição de Josiah H. Blackmore. In: Ivo Castro et al., “Vidas de santos de um manuscrito alcobacense (II).” In: Revista Lusitana, Nova Série (Lisboa), 5 (1984-1985), pp. 47-55.


Trecho traduzido e modernizado

Na cidade de Alexandria viveu um homem que tinha nome Panúncio, muito honrado e que cumpria bem os mandamentos de nosso Senhor. Este bom homem, tomou por esposa uma mulher que obedecia a sua linhagem, mulher honesta e de bons costumes, mas era maninha e não paria. E o marido estava em grande sofrimento porque não tinha para quem deixar sua riqueza depois da sua morte para que os seus bens fossem bem mantidos, e dava muitas esmolas aos pobres, ia com muita frequência às Igrejas, praticava jejum e orava rogando ao Nosso Senhor que lhe desse filho. E outrossim a sua mulher dava muito aos pobres e nos oratórios rogava a Deus que atendesse o seu desejo. E o bom homem Panúncio andava procurando algum santo homem que conseguisse ganhar aquela graça de nosso senhor por suas orações. E nesta busca chegou a um mosteiro no qual ouviu dizer que vivia um abade muito santo. E Panúncio ali fez doações para Deus e houve grande amor entre ele o abade e os frades. E depois de muito tempo falou com o abade de todo seu desejo, e o abade ouvindo pediu a Nosso Senhor que lhe desse o fruto, e Deus ouviu as orações de ambos e deu-lhe uma filha […].


Autor do documento:  Desconhecido, compilado por Farciso do Monte

Título do documento: Vida de Santa Eufrosina [COLECÇÃO HAGIOLÓGICA]

Data da composição: Século V, compilação século XV

Lugar da composição ou impressão: Ordem de Cister. Mosteiro de Santa Maria (Alcobaça)

Imagem: Primeira página do documento da Biblioteca Nacional de Portugal.  


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