Obras pastorais e Doutrinárias

Livro de Isaac

  • César Nardelli Cambraia - Universidade Federal de Minas Gerais

O Livro de Isaac é a tradução medieval portuguesa de parte da obra ascética de Isaac de Nínive. 

Nascido em Bet Qatraye (atual Qatar) em princípios do séc. VII, Isaac foi ordenado bispo de Nínive no Mosteiro de Bet ’Abe (norte do atual Iraque) por Jorge, o Católico, por volta de 676, mas, após cinco meses, renunciou ao cargo e passou a viver como anacoreta na montanha de Matut, na região de Bet Huzaye (atual província do Cuzistão no Irã). Mudou-se em seguida para Mosteiro de Rabban Shabur (também no atual Irã, provavelmente a sudoeste, próximo a Shushtar), onde faleceu com idade avançada em fins do séc. VII. 

O conjunto da obra de Isaac de Nínive, escrita originalmente em siríaco, costuma ser referido como composto de cinco partes. A chamada Primeira Parte compreende 82 capítulos e obteve uma difusão notável através dos séculos, sendo traduzida para diversas línguas ao longo da Idade Média (grego, árabe, amárico, georgiano, latim, eslavônico, italiano, francês, catalão, espanhol [cf. verbete Libro Llamado Abbat Ysach] e português). Dos 82 capítulos da Primeira Parte em siríaco, apenas 68 foram traduzidos para o grego e, destes, apenas 26 para o latim. No curso da transmissão da obra, passaram a circular como parte da obra de Isaac quatro capítulos da obra de João de Dalyata (ca. 690-ca. 780) e uma carta de Filoxeno (ca. 450-523) a Patrício: dois dos capítulos de Dalyata integraram a tradução latina da obra de Isaac. No estado atual do conhecimento sobre a tradição da obra de Isaac de Nínive, as evidências indicam que a tradução portuguesa tenha sido resultado da seguinte cadeia de tradução: siríaco (séc. VII) > grego (sécs. VIII-IX) > latim (séc. XIII) > catalão (séc. XIV) > espanhol (séc. XIV) > português (séc. XIV). 

A tradição portuguesa da obra de Isaac de Nínive compreende quatro testemunhos manuscritos medievais: cód. 50-2-15, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2a met. do séc. XV, ff. 1r-114r; cód. alc. 461, Biblioteca Nacional, Lisboa, 2a met. do séc. XV, ff. 14r- 101v; cód. alc. 281, Biblioteca Nacional, Lisboa, 2a met. do séc. XV, ff. 1v- 2v e 45r [fragmentos]; e cód. CXII/1-40, Biblioteca Pública, Évora, fins do séc. XV, ff. 13r- 20r [breve antologia].

A doutrina ascética de Isaac de Nínive visa a orientar o monge em seu caminho em direção a Deus: trata-se da chamada conversão do monge. Essa conversão consiste em um processo composto essencialmente de três etapas: corporal, da alma e espiritual

Na conversão corporal, o monge deve purificar seu corpo através de realização de obras corporais (especialmente jejum, vigília e oração). Nessa etapa, o monge deve praticar o afastamento do mundo, ou seja, de tudo que o liga à vida terrena, desfazendo-se de bens materiais; manter-se casto, combatendo os desejos carnais; admitir sua fraqueza, reconhecendo a necessidade da ajuda de Deus e mostrando-se por isso humilde; e  temer a Deus, a fim de manter-se no caminho correto. Durante essa etapa, o monge enfrenta diversas tribulações, em especial, as tentações que Deus permite ao diabo fazer ao monge para afastá-lo de seu caminho, sendo, por isso, importante para o monge manter seu pensamento limpo. Essa etapa é, por excelência, a da penitência.

Na conversão da alma, o monge deve purificar sua alma através de luta contra os movimentos estranhos à sua natureza (vícios e pecados), reestabelecendo a pureza de seu estado original. Nessa etapa, o monge deve voltar-se para si mesmo, uma vez que se ocupar de outros pode resultar em desvio de seu caminho em direção a Deus. Para a purificação da alma, desempenha papel importante a leitura das Sagradas Escrituras, o que leva o monge a desvencilhar-se de coisas mundanas, sendo também de importância a prática do silêncio, pois a conversa traz turbação à alma. A purificação da alma é atingida quando o monge não mais vê ou pensa em nenhum mal. O atingimento desse estado faz surgir no monge a contemplação, estado que vem acompanhado de lágrimas. Enquanto a conversão corporal constitui uma batalha de fora (uma batalha relativa aos sentidos), a conversão da alma consiste em uma batalha de dentro (uma batalha relativa ao coração).

A conversão espiritual consiste no ápice da conversão do monge, que é o momento da perfeição, e ocorre após o surgimento de derramamento de lágrimas, que é sinal de purificação. Nesse momento nasce um novo homem: o homem espiritual. O monge alcança, assim, estado de paz, sendo capaz de vislumbrar os bens do mundo divino através de um dom do Espírito Santo.

Em síntese, o sentido da conversão do monge é preparar-se para a vida após a morte, a vida eterna.

César Nardelli Cambraia
Universidade Federal de Minas Gerais

Edições Modernas

CAMBRAIA, C. N. Livro de Isaac: edição e glossário (cód. alc. 461). 753 f. 2000. Tese (Doutorado em Filologia e Língua Portuguesa) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000. [Edição dos códs. alc. 461 e CXII/1-40]

CAMBRAIA, C. N. Livro de Isaac: edição crítica da tradução medieval portuguesa da obra de Isaac de Nínive. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017. 370 p.  [Edição crítica dos códs. 50-2-15, alc. 461, alc. 281 e CXII/1-40]

MENEGAZ, R. Livro de Isaac de Nínive (séc. XV). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 1994. 467 p. [Edição do cód. 50-2-15]

Trecho traduzido e modernizado

Daquele que se quer manter e deleitar nas coisas de Deus 

e de todo se quer ligar a Ele 

— Capítulo primeiro —


A alma que ama a Deus tem seu repouso e folgança em Deus. Esforça-te em tirar de ti mesmo toda obrigação de fora, e então, com o teu coração, poderás ligar-te a Deus. O homem que se quer deleitar nas cousas divinas primeiro deve se afastar do mundo, assim como a criança dos seios. A obra corporal deve vir antes da obra da alma, assim como, na criação de Adão, o barro da terra veio antes do sopro da alma, porque esta nasce daquela, assim como a espiga nasce do grão desnudo e desvestido, e os dons espirituais minguam àqueles que não fazem a obra da alma. 

E os trabalhos deste mundo não são comparáveis aos deleites que estão reservados àqueles que, por Deus, sofrem aflições em seus bens. Assim como aqueles que semeiam lágrimas alcançam a recompensa de grande alegria, da mesma forma a aflição que é sofrida por amor alcança alegria espiritual, porque o que é ganhado com suor é muito doce ao lavrador, e as obras que são feitas por justiça ensinam ao coração que se alcançou a crença de Deus. Suporta sujeição com humildade e boa vontade, e terás segurança em Deus. Toda palavra dura que o homem suporta sem malícia, ele não diga outra por ela ao que lha diz: ele esteja bem certo de que uma coroa de espinhos será posta sobre sua cabeça e será bem-aventurado, porque, no tempo de que não se der conta, será coroado. 

Aquele que foge da glória do mundo já sente, na sua alma, o mundo que há de vir. Aquele que diz ou pensa que já deixou o mundo e contende com os outros por uso de alguma coisa que não lhe é muito necessária ou por míngua de sua folgança, este é de todo seco e o corpo dele de todo litiga sempre e batalha por um membro dele mesmo. Aquele que foge da folgança desta presente vida, o seu pensamento já sente o mundo que há de vir. Mas aquele que é atado por cobiça é servidor de pecados.


Autor da obra: Isaac de Nínive.

Título da obra (na tradução portuguesa): Livro de Isaac.

Data da tradução: Possivelmente fins do séc. XIV.

Imagem: Cód. 50-2-15, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2a met. do séc. XV, f. 3r

(Disponível em: http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=477)

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