Obras pastorais e Doutrinárias

Del sacrifício de la misa

  • Isabel Ilzarbe - Universidad de La Rioja

Do sacrificio da Missa


Do sacrifício da Missa, considerada a “obra mais alegórico-simbólica de Berceo¹ constitui, junto aos Sinais do Juízo Final e os Hinos, o ciclo doutrinal da poesia berceana. 

Conservamos um único manuscrito medieval desta obra, o Mss. 1533 da Biblioteca Nacional de Espanha, e nele ocupa os fólios 99v a 105v. Se encontra incompleto, faltando o fólio 106, que conteria os quadros 250d a 297d. Não obstante, é possível realizar uma reconstrução completa do texto graças ao chamado “Manuscrito Ibareta”, copiado no século XVIII e conservado na Biblioteca Monástica de Santo Domingo de Silos com a assinatura ms. 93. 

Em relação ao conteúdo do poema, fica claro que é herdeiro da visão tipológica do Cristianismo medieval a respeito da interpretação das Sagradas Escrituras, em que o Antigo Testamento foi lido pelo seu valor profético a espeito dos eventos do Novo Testamento. Isso supõe um abandono do caráter do “livro de leis” que o Judaísmo atribuir às Escrituras, e a aceitação de suas passagens como prefigurações da vinda de Cristo. 

Berceo aplicará esta visão binária ao texto, assimilando os altares em que realizavam os antigos sacrifícios como um elemento primário do que será posteriormente a Igreja, ou a oblação vegetal coletada em Levítico como prefiguração da oblação da hóstia cristã. Assim mesmo, relaciona a nível simbólico elementos como o cordeiro pascal com o sacrifício de Cristo. Com isso tudo, Berceo vem a reforçar a ideia própria da tipologia cristã de que Cristo é a perfeição de todas as prefigurações do Antigo Testamento:


158 Consertado foi este cordeiro

em todas as maneiras

apareceu no mundo

por correr pelo povoado

do Rei celestial,

de seu Pai igual;

em pessoa carnal

que estava em grande mal.


159 Este cordeiro simples

debateu o lobo mal,

aquele que expulsou Eva

e pegou Caim,


com sua simplicidade,

pleno de falsidade,

em grande cativeiro,

em forte inimizade.


160 No dia precioso

que é a ressurreição 

a sua carne comemos,

o seu sangue bebemos,


da Páscoa maior,

do Nosso Salvador,

do pão há o sabor,

graças ao Criador!


Algumas das correspondências entre as passagens do Antigo Testamento que Berceo menciona como prefigurações do sacrifício de Cristo são coletados na tabela a seguir:


Antigo Testamento

Do sacrificio da missa

Passagem bíblica

Conteúdo

Quadro

Abraão e Melquisedec

Gênesis 14, 17-20

64, 196a-b, 200a-201c

Sacrifício de Isaac

Gênesis 22, 2-12

196c-d, 200a-203c

Sacrificios rituais

Levítico 3; 4; 12, 4; 16, 2-20

4b-5d, 16b-d, 87a-88d, 112bd, 215a-c

Anúncio da vinda do Messias

Jeremias 23, 5-6

24


A missa, por sua vez, aparece como uma manifestação desta perfeição. A hóstia e o cálice seriam assim interpretados como pós-figurações de Cristo, enquanto o sacerdote seria uma pós-figuração dos apóstolos. Tudo isso, relacionado com as prefigurações do Antigo Testamento, chega ao seu clímax com a celebração da consagração e do rito da comunhão.


23 O nosso sacerdote

e face ao sacrifício

tudo isso ressemeia 

tudo ali foi cumprido

quando a missa canta,

sobre a mesa santa,

a hóstia que se quebranta,

e ali se cala.


O poema contém, além de numerosas alusões aos leitores/ouvintes, especialmente precedendo a aquelas cuadernas em que são narradas as partes do Ordo Missae próprio do rito romano. Podemos apreciar tanto uma clara intencionalidade didática, reforçada pelo emprego da língua românica para facilitar a aprendizagem da Bíblia e da liturgia. Precisamente por isso a crítica tem interpretado que o público ao qual Berceo se dirige com essa obra é muito mais restrito e específico que o caso de seus poemas hagiográficos (como o Poema de Santa Oria ou a Vida de Santo Domingo de Silos). É mais, como mostra o profundo conhecimento teológico e prático que é apreciado através do poema O sacrifício da missa deve ter sido composto por Berceo depois de ter sido ordenado sacerdote (data que Brian Dutton situa como posterior a 1237, quando na documentação emilianense, Gonzalo de Berceo, aparece nomeado como preste) como uma fonte de ensinamento do cânone da missa aos clérigos de entorno cerca do mosteiro de São Millán de la Cogolla.

Não é a primeira ocasião em que Berceo romanceia obras latinas com a finalidade de aproximá-las de um público cuja informação não incluía um conhecimento profundo do latim. Até este momento, de fato, não existe outro exemplo de tratado sobre a celebração litúrgica, escrito em romance, em toda Península Ibérica. Circulavam tratados em latim, como o contido no Ms. 298 da Biblioteca Nacional de Espanha, fonte mais que provável da obra de Berceo, escrito entre os séculos XII e XIII². Se especulou também a possibilidade de que utilizara como fonte de inspiração o De Sacro Altaris Mysterio de Inocêncio III e o Versus de Mysteris Missae de Hildebertus de Tours³.

É muito mais problemático estabeleceu uma relação entre o conteúdo e intenção do poema a respeito de seu contexto histórico e a possibilidade de que Berceo atenderia às estipulações a respeito do dogma da transubstanciação, presente em Do sacrifício da missa. É verdade que várias heresias do medievo rechaçavam esta ideia, como os valdenses (que consideravam que a transubstanciação somente teria lugar no interior da boca de quem comungava em estado de graça e não antes), e que isso supõe em grave problema para a Igreja da época, que tratou de solucionar no IV Concílio de Latrão estabelecendo este dogma, assim como um novo cânone para a missa que outorgava um maior protagonismo à consagração do pão e do vinho.

Porém, é difícil afirmar que as disposições emanadas do IV Concílio de Latrão puderam servir como fontes do poeta riojano. Assim, levando em consideração a problemática própria da Igreja hispana da época, Poole considera que não foi possível que Berceo tivesse tido acesso a textos e documentos emanados destas disposições. Contudo, em sua edição da obra, Cátedra sustentará que a relação entre o poeta e o bispo de Calahorra, Juan Pérez, rastreável através da documentação nas mesmas datas em que o legado papal de Abbeville esteve nesta diocese, parecem indicar o contrário. Além disso, defende que a presença e cercanias do legado do Papa responsável por fazer cumprir os princípios de Latrão deve ter servido como espora para a redação Do sacrifício da missa⁴. 

De sacrifício de la Misa


De sacrifício de la misa, considerada la “obra más alegórico-simbólica de Berceo⁵” constituye junto a los Signos del Juicio Final y los Himnos el ciclo doctrinal de la poesia berceana. 

Conservamos un único manuscrito medieval de esta obra, el Mss. 1533 de la Biblioteca Nacional de España, en el que ocupa los folios 99v a 105v. Se encuentra incompleto, faltando el folio 106, que contendría las cuadernas 250d a 297d. No obstante, es posible realizar una reconstrucción completa del texto gracias al llamado “Manuscrito Ibareta”, copiado em el siglo XVIII y conservado en la Biblioteca Monástica de Santo Domingo de Silos con la signatura ms.93. 

Em cuanto al contenido del poema, queda patente que es heredero de la visión tipológica del cristianismo medieval respecto a la interpretación de las Sagradas Escrituras, em la que el Antiguo testamento se leía por su valor profético respecto a los eventos del Nuevo Testamento. Ello supone um abandono del carácter de “libro de leyes” que el judaísmo atribuye a las Escrituras, y la aceptación de sus pasajes como prefiguraciones de la venida de Cristo. Berceo aplicará esta visión binaria al texto, assimilando los altares em los que se llevaban a cabo los antiguos sacrifícios como um elemento primario de lo que será posteriormente la Iglesia, o la oblación vegetal recogida em el levítico como prefiguración de la oblación de la Hostia Cristiana. Así mismo, relaciona a nível simbólico elementos como el cordero pascual con el sacrifício de Cristo. Com todo ello, Berceo viene a reforzar la idea propia de la tipologia Cristiana de que Cristo es la perfección de todas las prefiguraciones del Antiguo Testamento:


158 Fijo fue est cordero

en todas las maneras

pareció en el mundo

por acorrer al pueblo

del Reÿ celestial,

del su Padre egual;

en persona carnal

que yaciá en grant mal.


159 Esti cordero simple

debatió al mal lobo,

al que echó a Eva

e metió a Caín


con su simplicidad,

pleno de falsedad,

en grant captividad,

en fuert enemiztad.


160 En el día precioso

que es resurrección

la su carne comemos,

la su sangne bebemos,


de la Pascua mayor,

del nuestro Salvador,

de pan ha el sabor,

¡grado al Criador!


Algunas de las correspondências entre los pasajes del Antiguo Testamento que Berceo menciona como prefiguraciones del sacrifício de Cristo se recogen en la siguiente tabla. 

Antiguo Testamento

Del Sacrificio de la misa

Pasaje Bíblico

Contenido

Cuaderna

Abraham y Melquisedec

Génesis 14, 17-20

64, 196a-b, 200a-201c

Sacrificio de Isaac

Génesis 22, 2-12

196c-d, 200a-203c

Sacrificios rituales

Levítico 3; 4; 12, 4; 16, 2-20

4b-5d, 16b-d, 87a-88d, 112bd, 215a-c

Anuncio de la venida del Mesías

Jeremías 23, 5-6

24


La misa, por su parte, aparece como uma manifestación de esta perfección. La Hostia y el Cáliz serían así interpretadas como posfiguraciones de Cristo, mientras que el sacerdote sería una posfiguración de los apóstoles. Todo ello, relacionado com las prefiguraciones del Antiguo Testamento, llega a su clímax com la celebración de la consagración y el rito de la comunión. 

23 El nuestro sacerdot

e face sacrificio

todo esto remiembra

todo allí se cumpre

cuando la misa canta,

sobre la mesa sancta,

la Hostia que quebranta,

e allí se callanta.


El poema contiene, además numerosas alusiones a los lectores/oyentes, especialmente precediendo a aquellas cuadernas em las que se narran las partes del Ordo Missae próprio del rito romano. Podemos apreciar por tanto uma clara intencionalidad didáctica, reforzada por el empleo de la lengua romance para facilitar el aprendizaje de la Biblia y la liturgia. Precisamente por ello la crítica há interpretado que el público al que Berceo se dirige com esta obra es mucho más restringido y específico que en el caso de sus poemas hagiográficos (como el Poema de Santa Oria o la Vida de Santo Domingo de Silos). Es más, como muestra el profundo conocimiento teológico y práctico que se aprecia a través del poema, El Sacrificio de la Misa debió ser compuesto por Berceo después de haber sido ordenado sacerdote (fecha que Brian Dutton sitúa como posterior a 1237, cuando en la documentación emilianense Gonzalo de Berceo aparece normbrado como preste) como una fuente de enseñanza del cánon de la missa a los clérigos del entorno cercano del monasterio de San Millán de la Cogolla. 

No es la primera ocasión en la que Berceo romancea obras latinas con el fin de acercarlas a un público cuya formación no incluía um conocimiento profundo del latín. Hasta este momento, de hecho, no existe outro ejemplo de tratado sobre la celebración litúrgica escrito em romance em toda la Península Ibérica. Sí circulaban tratados en latín, como el contenido en el Ms. 298 de la Biblioteca Nacional de España, fuente más que probable de la obra de Berceo, escrito entre los siglos XII y XIII⁶. Se ha especulado también com la posibilidad de que utilizara como fuente de inspiración el De Sacro Altaris Mysterio de Inocencio III y el Versus de Mysteris Missae de Hildebertus de Tours⁷. 

Resulta mucho más problemático estabelecer uma relación entre el contenido e intención del poema respecto a su contexto histórico y a la posibilidad de que Berceo atendiera a lo estipulado respecto al dogma de la transubstanciación, presente em Del Sacrificio de la Misa. Es cierto que varias herejías plenomedievales rechazaban esta idea, como los valdenses (que consideraban que la transubstanciacion solo tenía lugar em el interior de la boca de quienes comulgaban em estado de gracia y no antes), y que ello supuso um grave problema para la Iglesia de la época, que trató de solucionar en el IV Concilio Lateranense estableció este dogma, así como un nuevo canon para la misa que otorgaba um mayor protagonismo a la consagración del pan y el vino. 

Sin embargo, es difícil plantear que las disposiciones emanadas del IV Concilio de Letrán pudieron servir como fuentes al poeta riojano. Así, teniendo em cuenta la problemática propia de la Iglesia hispana de la época, Poole considera que no fue posible que Berceo tuviera acceso a textos y documentos emanados de estas disposiciones (Poole ...). Sin embargo, em su edición de la obra, Cátedra sostendrá que la relación entre el poeta y el obispo de Calahorra Juan Pérez, rastreable a través de la documentación em las mismas fechas em las que el legado papal Abbeville estuvo en esta diócesis parecen indicar lo contrario. Es más, defende que la presencia y cercania del legado del Papa responsable de hacer cumplir los princípios lateranenses debió servir como acicate para la redacción de Del Sacrificio de la misa. 


¹ DUFFON, 1981, p. 1.
² DUTTON, 1981, pp. 64-75.
³ Veja a obra de Escuer-Rivera para um estudo aprofundado sobre estas fontes.
⁴ CÁTEDRA, 1991, pp. 939-941.
⁵ DUTTON, 1981, p. 1.
⁶ DUTTON, 1981, pp. 64-75.
⁷ Véase la obra de Escuer-Rivera para um estúdio em profundidad sobre estas fuentes.
⁸ CÁTEDRA, 1991, pp. 939-941.
Isabel Ilzarbe
Universidad de La Rioja

Edições Modernas

ALVAR LÓPEZ, M. Transcripción paleográfica del ‘Sacrificio de la Misa’ (BNM, ms. 1533). Archivo de filología aragonesa, V. 34-35, 1984, pp. 65-101

CÁTEDRA, P. Del sacrifício de la Misa. Edición y comentarios. In: VV.AA., Gonzalo de Berceo. Obras Completas. Madrid: Espasa-Calpe, 1991.

CLAVERÍA, C. Obras Completas. Gonzalo de Berceo. Madrid: Fundación José Antonio de Castro, 2003, pp. 153-198. 

DUTTON, B. El sacrifício de la misa. La Vida de Santa Oria. El Martirio de San Lorenzo, London: Thamesis Books, 1981. pp. 1-75.

ESCUER- RIVERA, I. El sacrifício de la Misa, de Gonzalo de Berceo. Estudio socio-cultural del poema con análisis particular de su estructura tipológica. Tese, Departmento de Estudos Franceses, Hispânicos e Italianos, University of British Columbia, 2002. Disponível em http://www.vallenajerilla.com/berceo/rieraescuer/sacrificiodelamisaberceo.htm

POOLE, Kevin. Berceo’s ‘Sacrificio de La Misa’: The First Spanish Liturgical Textbook. Hispania. V. 94, n. 1, 2011, pp. 74–85. 

RUIZ DOMÍNGUEZ, J.A. La historia de la salvación em la obra de Gonzalo de Berceo. Logroño: Instituto de Estudios Riojanos, 1990.

URÍA, I. Panorama crítico del Mester de Clerecía, Madrid: Castalia, 2000, pp. 270 y ss.

Trecho traduzido e modernizado

Original

1

En el nomne del Reÿ

qui es fin e comienzo

si guiarme quisiese

en su honor querría

que regna por natura,

de toda creatura,

la su santa mesura,

fer una escriptura.


2


Del Testamento Viejo

cómo sacrificaban

desent tornar al Nuevo

acordarlos en uno,


quiero luego fablar,

e sobre cuál altar;

por en cierto andar,

facerlos saludar.



Tradução


1

Em nome do Rei

que é fim e começo

se guiar-me quisesse

em sua honra queria

que reina pela natureza,

de toda criatura,

a sua santa mesura,

fazer uma escritura.


2


Do Velho Testamento

como sacrificavam 

desejam tornar ao Novo

acordá-los em um,


quero logo falar,

e sobre qual altar;

a propósito andar,

fazê-los saudar.





Autor do documento: Gonzalo de Berceo
Título do documento: Del sacrifício de la Misa
Data da composição: ca. 1237
Lugar de composição: San Millán de la Cogolla
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