Obras pastorais e Doutrinárias

Del enseñamiento del coraçon

  • Patrícia Antunes Serieiro Silva - UNICAMP

Del enseñamiento del coraçon é a edição incunábula da tradução castelhana quatrocentista do tratado De doctrina cordis, escrito na primeira metade do século XIII. Com exceção das breves informações contidas em alguns catálogos de obras espanholas e dos artigos de Marcelino González Pascual e, mais recentemente, de Anthony John Lappin, foram poucos os estudos que se dedicaram à análise do texto em sua versão castelhana.

O original latino, De doctrina cordis, de proveniência francesa, alcançou grande popularidade, sendo hoje conservado em mais de duzentos manuscritos – consideradas as versões longas e breves. Além disso, foi traduzido em diversas línguas vernaculares (castelhano, francês, alemão, inglês, holandês e italiano) e recebeu várias edições e reedições. Os historiadores chamaram a atenção para o caráter multiforme da obra, visto que ela se adapta a diversos usos e formatos: pregação, sermão, catequese, edificação, escolástica, entre outros (Marcelino Pascual/Christiania Whitehead). Sua autoria, porém, é ainda bastante discutida, tendo sido cogitados inúmeros nomes, como, por exemplo, o dominicano Gérard de Liège (Johannes Trithemius), os abades cistercienses homônimos – Gérard de Liège I e Gérard de Liège II – (André Wilmart), o franciscano São Boaventura (Juan Varela) e o dominicano Hugues de Saint Cher (Guido Hendrix). 

A versão castelhana de De doctrina cordis surge no século XV, momento de ebulição cultural e auge da tradução para o vernáculo de diversos textos latinos, tanto religiosos como profanos. Dela, nos foram transmitidos três manuscritos, datados da segunda metade do mesmo século, intitulados Enseñamiento del coraçon – Ms. Palma de Mallorca, Biblioteca Bartolomé March; Ms. 9209, Madrid, Biblioteca Nacional; e o Ms. 170, Santander, Biblioteca de Menéndez Pelayo – e cinco impressos: a edição incunábula, publicada em 30 de julho de 1498, em Salamanca (Del enseñamiento del coraçon); a edição de Juan Varela, baseada na antecedente, publicada em Toledo, em 1510 (Doctrina cordis de sant Buenaventura en romance: nuevamente corregido y enmendado); a edição de Miguel de Eguía, de 1525, baseada, ao que parece, na edição de Toledo (Doctrina cordis  de Sant Buena Ventura en romance); e a edição de Baeza, de 1551 (Doctrina cordis del seráfico dotor sant buena ventura en romance: muy util y provechoso para todos los fieles christianos: nuevamente corregido y emendado), impressa por Andrés Fanega. Têm-se notícias ainda de uma edição de 1576, de Saragoça, cujo impressor foi Miguel de Huessa (Primera parte del algunos tratados (...) traducidos (...) por fray Domingo Viota que se intitulan Doctrina del coraçón, Tratado de amor, Regimiento del ánima, y un Alphabeto espiritual...).

A edição de Salamanca de 1498, considerada a editio princeps, foi publicada alguns anos depois da chegada da imprensa a Castela, em 1473. Ela é composta de prólogo (fólios 1r-2r), de 33 capítulos (fólios 2r-117r), de uma lista de capítulos (fólios 117v-118r) e de uma xilogravura da missa de São Gregório (fólio118v), imagem não raramente encontrada em outros incunábulos salmantinos da época. Atualmente, contam-se seis exemplares da impressão, localizados em diversas bibliotecas europeias: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional de Espanha, Biblioteca Nacional de Paris, Biblioteca Menéndez Pelayo e Biblioteca do mosteiro de El Escorial. Apesar das variantes mínimas, não há indícios contundentes para se afirmar que a edição de Salamanca foi realizada a partir de um dos três manuscritos sobreviventes (PASCUAL, 2002:44). 

A presença da letra Y abaixo do escudo da impressora no último fólio da obra (fólio 119r) desencadeou discussões acerca do seu impressor, de modo que alguns historiadores chegaram ao nome de António de Nebrija (1444-1522), um dos personagens mais notáveis do Renascimento europeu. Nebrija foi professor da universidade de Salamanca, autor, entre outras obras, da primeira gramática em castelhano e, possivelmente, diretor de várias imprensas que funcionaram na cidade no momento da publicação do livro (GUTIÉRREZ, 1981:11). 

À exceção da edição de Juan Varela, a qual atribuiu a obra ao franciscano são Boaventura (1221-1274), e das impressões seguintes, que reforçaram a mesma autoria, a edição de Salamanca, assim como os manuscritos que a antecedem, nada dizem em relação ao autor. O mesmo silêncio é encontrado também no que diz respeito ao tradutor. Uma suposição convincente é a de que ele pertenceu aos meios universitários de Castela. Além dos conhecimentos linguísticos necessários para realizar tal tarefa, a ausência de menção a um indivíduo como destinatário do texto, geralmente um mecenas, poderia ser um indício de certa independência social e econômica do tradutor, perfil facilmente encontrável nos ambientes universitários (PASCUAL, 2002:59). De qualquer maneira, constata-se que ele dominava o programa da tradução, conhecia bem o público-alvo da obra e tinha conhecimentos suficientes de fontes gregas e médicas para fazer correções no texto (LAPPIN, 2010:260).

Del enseñamiento del coraçon, tal como o texto latino, é um tratado ascético-místico, uma espécie de guia espiritual. Numa linguagem profundamente alegórica e figurada, ele fornece orientações sobre como preparar o coração – signo material (órgão humano), mas, ao mesmo tempo, simbólico (emblema da vida íntima e da interioridade) – para a sua união com Deus. Nesse percurso, são abordadas sete etapas do coração (preparar, guardar, abrir, estabilizar, dar, elevar e escindir o coração), as quais correspondem aos sete dons do Espírito Santo (temor, ciência, piedade, fortaleza, conselho, entendimento e sabedoria) e invocados valores e comportamentos ascéticos e morais.

O texto é construído tendo como base menções constantes às passagens bíblicas, principalmente do Antigo Testamento. Também são recorrentes os comentários dos Padres da Igreja e dos doutores medievais (Jerônimo, Agostinho, Crisóstomo, Ambrósio, Dionísio, Gregório, Bernardo de Claraval, entre outros), assim como, em menor medida, a referência a autores profanos (Platão, Aristóteles, Sêneca, Avicena, entre outros). Observa-se ainda o uso de provérbios, de exemplos do cotidiano e de abundantes metáforas, sobretudo aquelas relacionadas ao ambiente doméstico. Ao abordar as diversas maneiras de se preparar o coração para receber Jesus Cristo, o autor diz: “o coração é de se preparar assim como é preparada a casa para receber algum hóspede de grande dignidade e como é preparado o manjar para comer e como é preparada a esposa para o prazer do esposo que vem vê-la”.¹

Até onde se sabe, a versão castelhana de De Doctrina Cordis foi consumida, principalmente, nos ambientes monásticos e conventuais, público ao qual ela é endereçada. As marcas e as anotações deixadas em alguns exemplares reforçam essa hipótese. Em todo caso, a nosso ver, não se deve descartar a possibilidade da utilização do livro por outros possíveis leitores/ouvintes. Embora faça referências às rotinas da vida claustral, há, no texto, ensinamentos morais e virtuosos, assim como instruções sobre os rudimentos da fé – os sete dons do Espírito Santo, os cinco sentidos (fólios 17r-23r), o Credo (fólios 83r-90r), entre outros –, que bem poderiam ser usufruídos nos círculos leigos. Vale ressaltar que as fronteiras de algumas prescrições sobre os fundamentos da fé cristã para os religiosos e leigos, contidas em certas obras em vernáculo na península ibérica, nesse momento, não eram tão rigidamente demarcadas (TEODORO, 2022:5-6).

Como era de se esperar, a tradução castelhana não fugiu à regra e sofreu algumas adaptações. Além da ordinatio, que converteu os sete capítulos do texto latino em 33 capítulos, mais curtos e desiguais, a obra é dirigida a religiosos do sexo masculino (monges e frades), talvez noviços, ao contrário da sua versão original, que, aparentemente, foi destinada aos religiosos dos dois sexos, e da tradução em inglês médio, cujo público-alvo, na maior parte dos testemunhos, foram as mulheres religiosas. A alusão aos religiosos claustrais aparece não só na fórmula “tu, religioso”, mas também no vocativo “hermano”: “Pois, irmão, seja o teu canto inteiro e bem pronunciado e soe continuamente em teus lábios o louvor divinal...”.²

Outras especificidades importantes da tradução castelhana podem ser destacadas, como, por exemplo, a supressão de críticas aos religiosos superiores – o que também ocorre na versão para o inglês médio –, a substituição e a domesticação de alguns termos, a evitação de perguntas retóricas e a preocupação do tradutor com o conhecimento bíblico do público principal a quem o tratado se destinava, ou seja, os religiosos dos claustros (LAPINN, 2010:244-252). Esse último aspecto se verifica, por exemplo, no auxílio que o tradutor oferece ao leitor para tornar mais claras e compreensíveis as metáforas e as alegorias, recurso que tornou as passagens mais longas do que no texto latino.

¹  “E primeramẽte para mientes cerca del aparejo del coraçõ que el coraçon es de aparejar ansi como es aparejada la casa para rescebir a algun huesped de gran dignidad e como es aparejado el mãjar para comer e como es aparejada la esposa para plazer al esposo que la viene a ver”. DEL ENSEÑAMIENTO DEL CORAÇON. Salamanca [Impr. de Nebrissensis, Gramatica], 1498, fol. 2v, tradução nossa.

²  “Pues hermano sea el tu canto entero e bien pronunciado e suene continuamente en tus labrios la alabanbança divinal...”. DEL ENSEÑAMIENTO DEL CORAÇON. Salamanca [Impr. de Nebrissensis, Gramatica], 1498, fol. 115r, tradução nossa.

Patrícia Antunes Serieiro Silva
UNICAMP

Edições Modernas

GUTIÉRREZ, Luisa Cuesta. La imprenta en Salamanca: avance al estudio de la tipografía Salmantina (1480-1944). Salamanca: Ediciones Universidad Salamanca, 1960.

HENDRIX, G. “Les ‘Postillae” de Hugues de Saint-Cher et Le Traité “De Doctrina Cordis.” In: Recherches de Théologie Ancienne et Médiévale, vol. 47, Peeters Publishers, 1980, pp. 114–30.

LAPPIN, Anthony John. The Spanish Translation: Del enseñamiento del coraçón (Salamanca, 1498). In: RENEVEY, Denis; WHITEHEAD, Christiania (Ed.). A Companion to The Doctrine of the Hert. The Middle English Translation and its Latin and European Contexts. Exeter: University of Exercer Press, 2010, pp. 238-263.

PASCUAL, Marcelino González. Enseñamiento del coraçón: uma traducción anónima castellana de De doctrina cordis. In: Boletín de la Biblioteca de Menéndez Pelayo, vol. 78, 2002, pp. 31-68.

RENEVEY, Denis; WHITEHEAD, Christiania. ‘Opyn þin hert as a boke’: Translation Practice and Manuscript Circulation in The Doctrine of the Hert. In: JENKINS, Jacqueline; BERTRAND, Olivier (Ed.). The medieval translator. Traduire au Moyen Âge. Belgium: Brepols, 2007, Vol. 10, pp. 125-148.

TEODORO, Leandro Alves. Emenda da Língua. 2022. 65p. (Manuscrito)

WHITEHEAD, Christiania. De Doctrina codis: Catechesis or Contemplation? In: RENEVEY, Denis; WHITEHEAD, Christiania (Ed.). A Companion to The Doctrine of the Hert. The Middle English Translation and its Latin and European Contexts. Exeter: University of Exercer Press, 2010, pp. 57-82.

Trecho traduzido e modernizado

Aparejad vuestros coragones al senor. Estas palabras son del sancto samuel: e son escriptas en el primero libro de los reyes. E el senor dize por Ysayas fablando a los predicadores. Fablad al coragon de iherusallen. E en esta palabra es amonestado al predicador que regale con estudio la palabra de salud con declaracion diligente e familiar porque pueda entrar mas ligeramente a los coragones de los oidores. Ca las palabras de Dios ansi son como unas uvas que estan llenas de gran abastanqa de vino...

Autor do documento: s/a
Título do documento: Del enseñamiento del coraçon
Data da composição: ca. Século XV

Lugar de impressão: Castela

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