O ensino da fé cristã na Península Ibérica
(séculos XIV, XV e XVI)

Arcipreste de Talavera o Corbacho

ALFONSO MARTÍNEZ DE TOLEDO. Arcipreste de Talavera o Corbacho Toledo: 1438.

Português
Na Baixa Idade Média a visão da mulher adquire uma conotação peculiar: por um lado segue vigente um ideal positivo de origem religiosa mas também laica (refletida pela literatura mariana e cortesã) ao que se incorpora agora a expressão da negatividade da figura feminina que sustentava os tratados religiosos e as obras literárias (os Padres da Igreja os fabliaux os contos orientais). Ao extinguir-se progressivamente a dimensão ideológica-cultural em que se baseava o universo cortesão o binômio bona mulier / mala mulier se inclina para o componente negativo mais implacável em um horizonte em que as categorias ideológicas e expressivas mudaram e acabam impondo uma visão mais laica urbana proto-burguesa na qual cabem até os aspectos mais baixos e desqualificantes.
Esta tendência não reflete apenas somente a perspectiva pessoal do r mas a expressão de uma mentalidade que aproveita os traços mais eficazes para conseguir seus objetivos. Trata-se portanto de um fenômeno relacionado aos códigos culturais e ao imaginário coletivo baseado em categorias ideológicas bem enraizadas no século XV fundamentadas em antecedentes literários e apologéticos. A situação então se torna mais clara: a crise ideológica do mundo cortesão em dissolução a intensificação do elemento negativo no binômio mala mulier / bona mulier a influência da tradição apologética e literária tornam-se auctoritates inevitáveis aproveitadas para finalidades didáticas e religiosas.
No âmbito hispânico é precisamente o Arcipreste de Talavera de Afonso Martínez de Toledo a obra que sintetiza a progressiva evolução de temas e tópicos deste tipo para reafirmar a corrupção da mulher através do mecanismo de rebaixamento e do exemplum e contrario.
O r animado por sua vontade de “reprovação do amor mundano” oferece no texto uma imagem da mulher que sintetiza os sete vícios capitais: de fato a misoginia deformante da obra procede da ideia de reprobatio amoris tipicamente medieval moldada pela imitação da estrutura do exemplum e contrario para remeter a tradição apologética e didática mas também a realidade.
A perspectiva do texto expressa pois um didatismo que remete a predicação e que resulta confirmado pela história derivado da condenação da mulher considerada um incentivo nefasto: é ela quem inclina-se a ser tentada pela carne e a abandonar-se ao “amor louco” do qual procedem “todos os males”.
A obra é composta por quatro livros o segundo desenvolve uma censura elaborada da figura feminina em virtude das pautas da narrativa exemplar circunscrita e reconcentrada no perímetro de sua breve extensão. O rebaixamento da mulher se realiza através de uma estratégia de composição específica: o clímax negativo é alcançado pela acumulação e termina em condenação suscitado pela superposição enfática de cenas e modelos que condensam a corrupção da mulher. A narrativa no entanto supera a essencialidade dos exempla tradicionais e concretiza um aparato ideológico e expressivo muito poderoso síntese da denúncia dos vícios femininos inspirado na condenação do corpo e do amor carnal e sustentado pelo didatismo e intenções moralizantes.
Então como em uma galeria de espelhos deformanes desfilam diante dos olhos do leitor “donzelas” mulheres e anciãs que moldam uma meta-figura nefasta síntese de toda perversão possível. Esta amplificação progressiva e imparável oferece a prova irrefutável do abismo de corrupção representado pela mulher.
Afonso Martínez de Toledo apresenta vários tipos cuja descrição e condenação corresponde a uma admoestação moral: “a avarenta” impulsionada pela avidez pela sede de bens e poder; “a mulher lamuriosa e detratora” expressão da falsidade e da inveja; a luxuriosa que ama a torto e a direito desenfreadamente; a mulher orgulhosa e enraivecida; a mulher cheia de “vaidade ilusória”; e até a “mulher embriagada” presa dos piores excessos. A conclusão inevitável é que “amar a Deus é sabedoria e ao outro loucura”. O r extrema a descrição do vício até o paroxismo aproveitando a amplificação e a distorção grotesca para sua finalidade exemplar; realiza tudo isso afastando-se progressivamente das auctoritates e mergulhando na realidade uma realidade enfatizada na qual se destaca uma série de anti-ícones encarnação de todo vício de figuras inspiradas pelo didatismo religioso e pelo reprobatio amoris medievais.
Idioma nativo
En la Baja Edad Media la visión de la mujer adquiere una connotación peculiar: por un lado sigue vigente un ideal positivo de origen religioso pero también laico (reflejado por la literatura mariana y cortesana) al que se añade ahora la expresión de la negatividad de la figura femenina que sustentaba los tratados religiosos y las obras literarias (los Padres de la Iglesia los fabliaux los cuentos orientales). Al extinguirse progresivamente la dimensión ideológico-cultural en que se basaba el universo cortesano el binomio bona mulier / mala mulier se inclina hacia el componente negativo más despiadado en un horizonte en que las categorías ideológicas y expresivas han cambiado y acaba imponiéndose una visión más laica urbana proto-burgués en la que caben hasta los aspectos más bajos y descalificadores.
Esta tendencia no refleja tan sólo la perspectiva personal del r sino que es expresión de una mentalidad que aprovecha los rasgos más eficaces para conseguir sus objetivos. Se trata por lo tanto de un fenómeno relacionado con los códigos culturales y el imaginario colectivo basado en categorías ideológicas bien arraigadas en el s. XV fundamentadas en antecedentes literarios y apologéticos. La situación entonces se vuelve más clara: la crisis ideológica del mundo cortesano en disolución la intensificación del elemento negativo en el binomio mala mulier / bona mulier el influjo de la tradición apologética y literaria se vuelven auctoritates ineludibles aprovechadas para finalidades didascálicas y religiosas.
En el ámbito hispánico es precisamente el Arcipreste de Talavera de Alfonso Martínez de Toledo la obra que sintetiza la progresiva evolución de temas y tópicos de este tipo para reafirmar la corrupción de la mujer a través del mecanismo de rebajamiento y el exemplum e contrario.
El r animado por su voluntad de reprobación del amor mundano ofrece en el texto una imagen de la mujer que sintetiza los siete vicios capitales: de hecho la misoginia deformante de la obra procede de la idea de reprobatio amoris típicamente medieval plasmada remedando la estructura del exemplum e contrario para remitir a la tradición apologética y didascálica pero también a la realidad.
La perspectiva del texto expresa pues un didacticismo que remite a la predicación y que resulta confirmado por la historia derivado de la condena de la mujer considerada un aliciente nefasto: es ella que inclina a dejarse tentar por la carne y a abandonarse al loco amor del que vienen todos los males.
La obra consta de cuatro libros; el segundo desarrolla una elaborada censura de la figura femenina según las pautas de la narración ejemplar circunscrita y reconcentrada en el perímetro de su breve extensión. El rebajamiento de la mujer se realiza a través de una específica estrategia compositiva: el clímax negativo se alcanza por acumulación y desemboca en la condena suscitada por superposición enfática de escenas y tipos que condensan la corrupción de la mujer. La narración sin embargo sobrepasa la esencialidad de los exempla tradicionales y concreta un aparato ideológico y expresivo muy potente síntesis de la denuncia de los vicios femeninos inspirado en la condena del cuerpo y del amor carnal y sustentado por el didacticismo y los intentos moralizadores.
Entonces como en una galería de espejos deformantes desfilan ante los ojos del lector ‘doncellas’ mujeres y ancianas que plasman una meta-figura nefasta síntesis de toda posible perversión. Esta amplificación progresiva e imparable ofrece la prueba irrefutable del abismo de corrupción representado por la mujer.
Alfonso Martínez de Toledo presenta varios tipos cuya descripción y condena corresponde a un amonestamiento moral: la avariciosa empujada por la avidez por la sed de bienes y poder; la muger mormorante y detractora expresión de la falsedad y de la envidia; la lujuriosa que ama a diestro e a siniestro desenfrenadamente; la mujer altiva y la iracunda; la mujer llena de vanagloria ventosa; y hasta la muger embriaga presa de los excesos peores. La inevitable conclusión es que amar a Dios es sabieza e lo ál locura. El r extremiza la descripción del vicio hasta paroxismo aprovechando la amplificación y la distorsión grotesca para su fin ejemplar; realiza todo esto alejándose progresivamente de las auctoritates y zambulliéndose en la realidad una realidad enfatizada en que destaca una serie de anti-iconos encarnación de todo vicio de figuras inspiradas por el didacticismo religioso y por la reprobatio amoris medievales.

Veronica Orazi
Università degli Studi di Torino

Edições Modernas

ALFONSO MARTÍNEZ DE TOLEDO. Arcipreste de Talavera o Corbacho. In: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes.Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes
http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/arcipreste-de-talavera-o-corbacho--0/html/fedfb970-82b1-11df-acc7-002185ce6064_2.html

Trecho traduzido e modernizado

Em nome de Deus e da santa trindade, pai, filho e espírito santo, três pessoas em um só Deus verdadeiro, feitor, ordenador e compositor de todas as coisas sem o qual nenhuma coisa pode ser bem feita, bendita, iniciada, mediada nem finalizada, tendo como mediadora, intercessora e advogada sem defeito, a virgem Santa Maria. Portanto, eu, Martín Alfonso de Toledo, bacharel, arcipreste de Talavera, capelão de nosso senhor o rei Don João de Castela – que Deus mantenha por longos e bons tempos – ainda que indigno, propus fazer um breve compêndio em romance para trazer alguma informação para quem se apetece de ler, para aqueles que retêm o que lêem, e aqueles que colocam em prática o que retiveram. Especialmente para aqueles que não trilharam o mundo, nem beberam de suas bebidas amargas, nem experimentaram de sua comida amarga, porque para aqueles que sabem e já viram, sentiram e ouviram não escrevo, pois o seu saber basta-lhes para se defender das coisas contrárias. E está dividido em quatro partes: na primeira falarei da reprovação do amor louco. E no segundo direi sobre algumas condições das mulheres viciosas. E na terceira prosseguirei com as compleições dos homens (quais são ou quais virtude têm para amar ou serem amados). E na quarta concluirei reprovando a maneira comum de falar das sinas, venturas, fortunas, signos e planetas, reprovada pela santa madre igreja e por aqueles a quem Deus deu sentido, senso e juízo natural e entendimento racional.

Autor: Alfonso Martínez de Toledo.
Nome da obra: Arcipreste de Talavera o Corbacho.
Data: 1438.
Local: Toledo.
Imagens: Biblioteca Nacional de España.